Novamente vou usar este espaço para registrar tristeza: a morte do meu cunhado Geraldo, viúvo de minha irmã Maria Helena.
Tiveram três filhos, Antônio Augusto Prado Orsini, Paulo Celso Prado Orsini e Maria Fernanda Prado Orsini.
Geraldo foi mais um que entrou na nossa família e era querido por todos nós, já fazia parte de nosso clã.
De novo nos reunimos para dizer adeus a ele, os filhos levaram alguns quadros, pintados por ele, para a cerimônia do Funeral, e chamou a atenção um deles, que era a reprodução de uma foto de minha irmã na lua-de-mel deles - uma linda recordação.
Em minha sala está também um quadro pintado por ele: uma reprodução de uma foto pequena de minha mãe aos 16 anos. Essa peça foi disputada por todos, quando da morte de minha mãe, mas permaneceu comigo porque era onde sempre estivera, já que minha mãe morava comigo, embora ficasse um tempo na casa de cada filho.
Geraldo era mesmo um artista, sempre pintou apenas por prazer, que eu saiba nunca quis vender seus quadros. Seus filhos ficaram com perto de uma centena deles, acredito.
Foi mais um dia de luto e tristeza para nossa família.
Todos nós vamos sentir muito sua falta.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
HEITOR BENEDICTO PRADO
vadasHoje só quero fazer o registro da morte do meu irmão Heitor, cujo coração parou de bater ontem, 24.11.2009. Era o terceiro filho de meus pais, eu sou a sétima. Tinha 78 anos de idade.
Foi enterrado no Cemitério do Araçá, em São Paulo.
Minha filha Silvinha escreveu ontem uma homenagem a ele em seu blog, se alguém quiser ver vá lá:
ia-vinha.blogspot.com
Toda a família está triste, vamos sentir saudade.
Abaixo transcrevo o e-mail que minha sobrinha Márcia Regina, filha de minha irmã Beatriz e de seu marido Fernando Credidio, escreveu para nós irmãs de Heitor e para sua filhas Ana Paula e Renata:
"Queridas primas e tias
Gostaria de dar um beijo especial em vocês, filhas e irmãs do ilustre Totó.
Um tio presente, querido e sempre atencioso.
Conhecido, tido e havido como uma pessoa justa, dificil e adorável.
Eu só conheci o lado bom, generoso, alegre e brincalhão, irreverente, questionador.
NUNCA vi este homem de mal humor, agressivo, mal educado ou bravo.
Nas visitas que fiz no hospital e na casa de saúde, senti como ele gostava de mim e da minha família.
Não queria mais um dia de sofrimento para ele. Acho que uma turma enorme foi recebê-lo, e agora para ele, de verdade vai começar a festa!!!!
Fui ao centro hoje a noite, coloquei o nome dele.Vou continuar vibrando e rezando para que encontre o descanso e o caminho logo até a tão esperada paz.
Espero que tenham compreendido minha ausência.Embora tenha passado literalmente na porta ás 7 horas da manhã, não sabia que já estava lá.
Mas soube que foi um mal entendido, e realmente entendo que nestas horas acontecem coisas que em outras circunstâncias não aconteceriam.
Um beijo e força para vocês
Marcia, Marco e Gustavo
Tia Silvia:
Por favor , encaminhe para Renata e Ana, pois não consigo acessar minha lista de contatos no momento.
Obrigada
Marcia"
Transcrevo também o e-mail que meu filho Plinio César Prado Bolognani, que mora no Rio de Janeiro, escreveu para se desculpar por sua ausência ao velório, e também minha resposta a ele, no mesmo e-mail.
"Queridos Familiares.
Queria dizer que sentí muito não conseguir dizer o meu "tchau" para o tio Heitor.
Eu sou muito grato a ele por muita coisa que ele sempre fez questão de fazer por mim.
Ele, quando eu nasci, fez uma poupancinha em meu nome, sempre esteve por perto, sempre se preocupou demais comigo.
Fiquei muito emocionado quando, no finzinho da vida, ele se mostrava muito interessado no meu casamento, de como seria. Tenho certeza que se ele tivesse o minimo de condições, ele teria vindo.
Tio Heitor que deixará muita saudade. Principalmente para mim. "
Minha resposta:
"É, querido, além da poupança, quando você nasceu ele fez também uma poesia para você, tenho guardada até hoje na sua pastinha de arquivo, vou enviar para você; está manuscrita por ele.
beijos,
Mamãe"
Cito essas coisas que foram escritas a respeito do Heitor, quando de sua morte, para deixar
registradas aqui algumas lembranças dos sobrinhos sobre ele. Eu não pretendo, neste blog, falar de meus contemporâneos da família, mas acredito que estas opiniões dos sobrinhos devem ser preser.
Foi enterrado no Cemitério do Araçá, em São Paulo.
Minha filha Silvinha escreveu ontem uma homenagem a ele em seu blog, se alguém quiser ver vá lá:
ia-vinha.blogspot.com
Toda a família está triste, vamos sentir saudade.
Abaixo transcrevo o e-mail que minha sobrinha Márcia Regina, filha de minha irmã Beatriz e de seu marido Fernando Credidio, escreveu para nós irmãs de Heitor e para sua filhas Ana Paula e Renata:
"Queridas primas e tias
Gostaria de dar um beijo especial em vocês, filhas e irmãs do ilustre Totó.
Um tio presente, querido e sempre atencioso.
Conhecido, tido e havido como uma pessoa justa, dificil e adorável.
Eu só conheci o lado bom, generoso, alegre e brincalhão, irreverente, questionador.
NUNCA vi este homem de mal humor, agressivo, mal educado ou bravo.
Nas visitas que fiz no hospital e na casa de saúde, senti como ele gostava de mim e da minha família.
Não queria mais um dia de sofrimento para ele. Acho que uma turma enorme foi recebê-lo, e agora para ele, de verdade vai começar a festa!!!!
Fui ao centro hoje a noite, coloquei o nome dele.Vou continuar vibrando e rezando para que encontre o descanso e o caminho logo até a tão esperada paz.
Espero que tenham compreendido minha ausência.Embora tenha passado literalmente na porta ás 7 horas da manhã, não sabia que já estava lá.
Mas soube que foi um mal entendido, e realmente entendo que nestas horas acontecem coisas que em outras circunstâncias não aconteceriam.
Um beijo e força para vocês
Marcia, Marco e Gustavo
Tia Silvia:
Por favor , encaminhe para Renata e Ana, pois não consigo acessar minha lista de contatos no momento.
Obrigada
Marcia"
Transcrevo também o e-mail que meu filho Plinio César Prado Bolognani, que mora no Rio de Janeiro, escreveu para se desculpar por sua ausência ao velório, e também minha resposta a ele, no mesmo e-mail.
"Queridos Familiares.
Queria dizer que sentí muito não conseguir dizer o meu "tchau" para o tio Heitor.
Eu sou muito grato a ele por muita coisa que ele sempre fez questão de fazer por mim.
Ele, quando eu nasci, fez uma poupancinha em meu nome, sempre esteve por perto, sempre se preocupou demais comigo.
Fiquei muito emocionado quando, no finzinho da vida, ele se mostrava muito interessado no meu casamento, de como seria. Tenho certeza que se ele tivesse o minimo de condições, ele teria vindo.
Tio Heitor que deixará muita saudade. Principalmente para mim. "
Minha resposta:
"É, querido, além da poupança, quando você nasceu ele fez também uma poesia para você, tenho guardada até hoje na sua pastinha de arquivo, vou enviar para você; está manuscrita por ele.
beijos,
Mamãe"
Cito essas coisas que foram escritas a respeito do Heitor, quando de sua morte, para deixar
registradas aqui algumas lembranças dos sobrinhos sobre ele. Eu não pretendo, neste blog, falar de meus contemporâneos da família, mas acredito que estas opiniões dos sobrinhos devem ser preser.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
DEFEITOS DO GINO
Agora em outubro de 2009, minha irmã Suzana, a querida Suzy, como a chamamos, veio passar uns dias comigo aqui em São Vicente, para terminarmos nossos preparativos pessoais para irmos ao Rio de Janeiro assistir - e participar - do grande evento da família (pelo menos da parte da familia que fica bem próxima a mim), que foi o casamento de meu filho caçula Plínio com a carioca Karin. A festa aconteceu em 1.11.2009, comovente e maravilhosa, na Quinta do Chapecó, que fica no Alto da Boa Vista na Cidade Maravilhosa. Momento de chegada de novos integrantes para a família, pessoas que cruzam os caminhos dos personagens desta história e que passam a fazer parte da nossa vida. Não vou falar desse feliz acontecimento aqui, não é esse o intuito deste blog, só fica o registro.
Mencionei a vinda da Suzy para cá para contar algumas coisas que ela lembrou ter ouvido da Vó Tudinha e que eu não sabia.
Como marido, Gino não era muito fácil, não. Teve "casos" amorosos, era genioso no trato com sua mulher. Por exemplo, exigia que todos os mais de cem colarinhos que tinha para uso nas camisas estivem passados e engomados na gaveta; quando cismava, contava os colarinhos ali guardados, e se não estivessem todos, se um sequer estivesse faltando, jogava-os no chão e os pisoteava para que ela, Vó Tudinha, os lavasse e passasse novamente. Ela contava que sofreu na mão dele, por coisas assim. Pobrezinha, imagino que submissão se esperava dela naquela época, ainda mais em se considerando que ele era um homem mais estudado e ela muito mais ignorante, ingênua, provavelmente sem nenhum prazer com ele, sem nenhuma intimidade verdadeira. Se nos dias de hoje ainda se espera muito respeito e aceitação por parte da mulher em um casamento, em relação ao seu marido, que dirá naqueles idos de 1800/1900!
Claro que não me cabe - e nem tenho a menor pretensão - de fazer qualquer espécie de julgamento aqui. Apenas quero deixar anotadas as coisas que ouvi, para que se possa ter, dentro das restrições existente, a mais clara idéia possível de como eram as pessoas mencionadas. Assim como falei com tanta admiração de Gino Pochini, também aqui ficam ditos os seus defeitos ou pecados. O ser-humano Gino Pochini.
Mencionei a vinda da Suzy para cá para contar algumas coisas que ela lembrou ter ouvido da Vó Tudinha e que eu não sabia.
Como marido, Gino não era muito fácil, não. Teve "casos" amorosos, era genioso no trato com sua mulher. Por exemplo, exigia que todos os mais de cem colarinhos que tinha para uso nas camisas estivem passados e engomados na gaveta; quando cismava, contava os colarinhos ali guardados, e se não estivessem todos, se um sequer estivesse faltando, jogava-os no chão e os pisoteava para que ela, Vó Tudinha, os lavasse e passasse novamente. Ela contava que sofreu na mão dele, por coisas assim. Pobrezinha, imagino que submissão se esperava dela naquela época, ainda mais em se considerando que ele era um homem mais estudado e ela muito mais ignorante, ingênua, provavelmente sem nenhum prazer com ele, sem nenhuma intimidade verdadeira. Se nos dias de hoje ainda se espera muito respeito e aceitação por parte da mulher em um casamento, em relação ao seu marido, que dirá naqueles idos de 1800/1900!
Claro que não me cabe - e nem tenho a menor pretensão - de fazer qualquer espécie de julgamento aqui. Apenas quero deixar anotadas as coisas que ouvi, para que se possa ter, dentro das restrições existente, a mais clara idéia possível de como eram as pessoas mencionadas. Assim como falei com tanta admiração de Gino Pochini, também aqui ficam ditos os seus defeitos ou pecados. O ser-humano Gino Pochini.
DÚVIDAS DE LOGÍSTICA
Hoje é dia 10.11.2009, e acrescentei registros a uma postagem bem antiga deste Blog, lá no início, postagem chamada "Voltando às Origens".
Acontece que estou em dúvida sobre como devo fazer eventuais registros de coisas que fico sabendo a posteriori. Como estou escrevendo este Blog, volta e meia esse assunto surge com meus familiares, e eles me contam algum detalhe sobre alguém que já retratei, o qual considero relevante e quero registrar; por duas vezes já voltei às postagens antigas e acrescentei coisas, mas estou achando que isto está ficando muito cansativo pois se repete a cada pouco.
Penso que vou ter que fazer diferente: talvez postagens que sejam marcadas como devendo se reportar a alguma outra anterior, e vamos seguir em frente. Assim, meus eventuais leitores não terão que ficar voltando a textos já lidos, para ver modificações.
Veremos se vai dar certo. Por favor, desculpem minhas faltas nesse sentido, não estou compilando dados de nenhum lugar, ordenadamente, mas simples e despretensiosamente, anotando lembranças conforme elas me venham à memória ou me sejam mencionadas por alguém.
Acontece que estou em dúvida sobre como devo fazer eventuais registros de coisas que fico sabendo a posteriori. Como estou escrevendo este Blog, volta e meia esse assunto surge com meus familiares, e eles me contam algum detalhe sobre alguém que já retratei, o qual considero relevante e quero registrar; por duas vezes já voltei às postagens antigas e acrescentei coisas, mas estou achando que isto está ficando muito cansativo pois se repete a cada pouco.
Penso que vou ter que fazer diferente: talvez postagens que sejam marcadas como devendo se reportar a alguma outra anterior, e vamos seguir em frente. Assim, meus eventuais leitores não terão que ficar voltando a textos já lidos, para ver modificações.
Veremos se vai dar certo. Por favor, desculpem minhas faltas nesse sentido, não estou compilando dados de nenhum lugar, ordenadamente, mas simples e despretensiosamente, anotando lembranças conforme elas me venham à memória ou me sejam mencionadas por alguém.
domingo, 18 de outubro de 2009
LEONILDA - MAIS LEMBRANÇAS
Se, antes desta data de 18 de outubro de 2009, você já leu minhas postagens anteriores, sugiro que volte a fevereiro de 2009, e releia o texto que se chama "Falando da Leonilda", porque acrescentei algumas lembranças e contei fatos que não havia mencionado naquela postagem.
Claro que eu poderia ter escrito direto numa nova postagem atual, mas achei que seria melhor dar continuidade àquele texto original. Desculpe o incõmodo.
Claro que eu poderia ter escrito direto numa nova postagem atual, mas achei que seria melhor dar continuidade àquele texto original. Desculpe o incõmodo.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
ISOLINA - VIÚVA TÃO JOVEM
Pelo que sei, Isolina e Júlio foram felizes juntos. A única coisa que me lembro de ouvir minha mãe dizer sobre esse tempo é que ela e meu pai iam visitar o casal em Nipoã - não tenho idéia de onde seja essa lugar - e que a Lina fazia almoços maravilhosos.
(Descobri na Internet que é uma cidadezinha do Estado de São Paulo, que fica a cerca de 50 km de São José do Rio Preto.)
Mas, ao enviuvar, aparentemente ficou numa situação financeira muito ruim, com 5 crianças sob sua responsabilidade e ninguém com quem contar. Embora muito nova, ela foi à luta, minha mãe contava que até sabão para fora ela fez para conseguir dinheiro para manter a família. Talvez tenha sido nessa época negra de sua vida que aprendeu tantas coisas, tantos trabalhos diferentes, que adquiriu tantas prendas. Além de cozinhar, costurava, bordava, subscritava envelopes e escrevia em diplomas e similares com uma letra artísticamente bordada, homogênea, simétrica, perfeita; extremamente exigente consigo própria, não aceitava nada menos do que a perfeição em seus trabalhos. A verdade é que sobreviveu e fez sobreviver sua família, os cunhados não tinham grandes posses para ajudar, também eram pais de muitos filhos, não havia muito a quem recorrer, Isolina tinha que contar consigo mesma e com seu trabalho.
Só em 1947 ela conseguiu uma indicação de alguém influente e arrumou um emprego na Assembléia Legislativa de São Paulo, onde trabalhou até se aposentar. Aí a vida ficou menos difícil , tinha um bom salário e um cargo importante e conceituado. Mas as despesas eram muitas e, quando minha irmã Maria Helena veio estudar em São Paulo para ingressar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, morou com a Tia Lina em uma pensão, a luta pela sobrevivência na Capital era grande.
Mas Isolina era alegre, adorava a vida, gostava de se vestir bem, de usar jóias, de viajar e curtir. Muito comunicativa, cantava bem, conversava bem, tinha boa educação e foi conquistando traquejo social, fazia amizades facilmente, enfim, era uma excelente companhia, exuberante, cheia de charme. Uma vez fez uma viagem de navio à Argentina e foi eleita uma das mulheres mais elegantes do navio, o que a deixou muito feliz, jamais perdia a chance de contar esse caso.
Todos os anos, dava uma festa em seu aniversário; e a família em peso comparecia, além de muitos amigos, seu apartamento ficava lotado, sempre havia muitos comes e bebes, eram ótimas festas. E a moçada toda estava lá, não era como hoje se pensaria no aniversário de uma tia, uma comemoração sem muito ânimo, velha; não, as festas da Tia Lina eram concorridas e animadas, e isso até ela ficar bem velhinha.
Era engraçado como ficava feliz de as pessoas lembrarem de seu aniversário. Ia anotando e numerando as pessoas que ligavam e, se você não ligasse bem cedo, ela dizia: você é a décima pessoa que me liga hoje. Houve um ano que contabilizou mais de setenta telefonemas.
Vaidosa, orgulhava-se de ter a pele conservada e brilhante, os cabelos quase sem fios brancos, e gostava de exibir esses predicados. Com o passar dos anos, foi ficando com muitos problemas de saúde, e a gente precisava estar com tempo livre para falar com ela ao telefone, ela contava todas as suas mazelas, não tinha pressa de desligar. Mas era realmente muito amiga da sobrinhada toda.
Quando minha irmã Suzana e seu marido Amaury foram com os filhos morar em Assunção no Paraguai, logo lá estava a animada Tia Lina visitando. O apartamento no Guarujá de outra irmã, Maria Helena e Geraldo, já tinha um lugarzinho cativo para a Tia Lina e seus chapelões de praia.
Ela logo simpatizou muito com meu namorado (na época) José, que também a adorava, fazia questão de ir sempre visitá-la. No meu casamento, foi dela a responsabilidade de fazer meu vestido de noiva, ficou uma perfeição de caimento, danada de caprichosa a nossa querida tia; fez também algumas peças para a lua-de-mel, tipo pantalonas e macaquinhos-shorts, jamais vou me esquecer, quase não cobrou nada, só mesmo o suficiente para cobrir as despesas.
Uma vez a convidamos para conhecer nosso trailler, ela foi conosco passar o dia no Camping, passeamos com ela por tudo lá, fizemos churrasco, ela se encantou com o trailler, viu cada detalhezinho dos armários, camas, cozinha, banheiro, parecia uma criança.
Mais pra frente, já diabética, ela teve que amputar uma parte da perna, e disse uma frase que marcou muito meu marido José - quando anos mais tarde ele teve que sofrer também amputação; ela tinha dito:
- sabe, amputar a perna não é um bicho de sete cabeças!
Quando quis fazer estes registros, perguntei à Maria Cecilia, neta da Tia Lina, filha de seu filho Washington e de Flora, sua mulher, algumas datas, e ela me respondeu informando não só as datas pedidas mas contando coisas com muito amor e carinho sobre, como ela disse, a querida Vovó Isolina. Cecilia lembra que a avó sempre foi como uma mãe para ela e suas irmãs, gostava de orientar e educar as crianças sobre como por a mesa, como servir os alimentos, ensinando várias regras de etiqueta, aconselhando as crianças a não saírem da mesa enquanto todos não tivessem acabado a refeição e coisas assim. Ensinou também muito sobre fé e religião, orientando-as espiritualmente. Foi ela quem presenteou a Cecília em sua Primeira Comunhão com um terço de prata. E mais tarde foi sua madrinha de casamento, vestida de veludo azul, linda. A neta também ressalta como a avó escrevia bem, até fez uma poesia para sua nora Flora quando seu filho estava para se casar. Era atenciosíssima com todos, e esperava receber atenções de todos.
Até o fim de sua vida ela teve a companhia da zelosa Nina, uma negra forte e bonita que tinha sido empregada de sua filha Dulce, na época de seus filhos pequenos; ficou como uma babá para Isolina, faziam tudo uma pela outra.
Nos últimos anos, sofreu muito, estava sempre acamada, era hospitalizada frequentemente, foi apagando a luz da Isolina. Morreu em outubro de 1998.
Lembrando o que ela havia significado na minha vida adulta, senti que estava perdendo uma amiga querida.
(Descobri na Internet que é uma cidadezinha do Estado de São Paulo, que fica a cerca de 50 km de São José do Rio Preto.)
Mas, ao enviuvar, aparentemente ficou numa situação financeira muito ruim, com 5 crianças sob sua responsabilidade e ninguém com quem contar. Embora muito nova, ela foi à luta, minha mãe contava que até sabão para fora ela fez para conseguir dinheiro para manter a família. Talvez tenha sido nessa época negra de sua vida que aprendeu tantas coisas, tantos trabalhos diferentes, que adquiriu tantas prendas. Além de cozinhar, costurava, bordava, subscritava envelopes e escrevia em diplomas e similares com uma letra artísticamente bordada, homogênea, simétrica, perfeita; extremamente exigente consigo própria, não aceitava nada menos do que a perfeição em seus trabalhos. A verdade é que sobreviveu e fez sobreviver sua família, os cunhados não tinham grandes posses para ajudar, também eram pais de muitos filhos, não havia muito a quem recorrer, Isolina tinha que contar consigo mesma e com seu trabalho.
Só em 1947 ela conseguiu uma indicação de alguém influente e arrumou um emprego na Assembléia Legislativa de São Paulo, onde trabalhou até se aposentar. Aí a vida ficou menos difícil , tinha um bom salário e um cargo importante e conceituado. Mas as despesas eram muitas e, quando minha irmã Maria Helena veio estudar em São Paulo para ingressar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, morou com a Tia Lina em uma pensão, a luta pela sobrevivência na Capital era grande.
Mas Isolina era alegre, adorava a vida, gostava de se vestir bem, de usar jóias, de viajar e curtir. Muito comunicativa, cantava bem, conversava bem, tinha boa educação e foi conquistando traquejo social, fazia amizades facilmente, enfim, era uma excelente companhia, exuberante, cheia de charme. Uma vez fez uma viagem de navio à Argentina e foi eleita uma das mulheres mais elegantes do navio, o que a deixou muito feliz, jamais perdia a chance de contar esse caso.
Todos os anos, dava uma festa em seu aniversário; e a família em peso comparecia, além de muitos amigos, seu apartamento ficava lotado, sempre havia muitos comes e bebes, eram ótimas festas. E a moçada toda estava lá, não era como hoje se pensaria no aniversário de uma tia, uma comemoração sem muito ânimo, velha; não, as festas da Tia Lina eram concorridas e animadas, e isso até ela ficar bem velhinha.
Era engraçado como ficava feliz de as pessoas lembrarem de seu aniversário. Ia anotando e numerando as pessoas que ligavam e, se você não ligasse bem cedo, ela dizia: você é a décima pessoa que me liga hoje. Houve um ano que contabilizou mais de setenta telefonemas.
Vaidosa, orgulhava-se de ter a pele conservada e brilhante, os cabelos quase sem fios brancos, e gostava de exibir esses predicados. Com o passar dos anos, foi ficando com muitos problemas de saúde, e a gente precisava estar com tempo livre para falar com ela ao telefone, ela contava todas as suas mazelas, não tinha pressa de desligar. Mas era realmente muito amiga da sobrinhada toda.
Quando minha irmã Suzana e seu marido Amaury foram com os filhos morar em Assunção no Paraguai, logo lá estava a animada Tia Lina visitando. O apartamento no Guarujá de outra irmã, Maria Helena e Geraldo, já tinha um lugarzinho cativo para a Tia Lina e seus chapelões de praia.
Ela logo simpatizou muito com meu namorado (na época) José, que também a adorava, fazia questão de ir sempre visitá-la. No meu casamento, foi dela a responsabilidade de fazer meu vestido de noiva, ficou uma perfeição de caimento, danada de caprichosa a nossa querida tia; fez também algumas peças para a lua-de-mel, tipo pantalonas e macaquinhos-shorts, jamais vou me esquecer, quase não cobrou nada, só mesmo o suficiente para cobrir as despesas.
Uma vez a convidamos para conhecer nosso trailler, ela foi conosco passar o dia no Camping, passeamos com ela por tudo lá, fizemos churrasco, ela se encantou com o trailler, viu cada detalhezinho dos armários, camas, cozinha, banheiro, parecia uma criança.
Mais pra frente, já diabética, ela teve que amputar uma parte da perna, e disse uma frase que marcou muito meu marido José - quando anos mais tarde ele teve que sofrer também amputação; ela tinha dito:
- sabe, amputar a perna não é um bicho de sete cabeças!
Quando quis fazer estes registros, perguntei à Maria Cecilia, neta da Tia Lina, filha de seu filho Washington e de Flora, sua mulher, algumas datas, e ela me respondeu informando não só as datas pedidas mas contando coisas com muito amor e carinho sobre, como ela disse, a querida Vovó Isolina. Cecilia lembra que a avó sempre foi como uma mãe para ela e suas irmãs, gostava de orientar e educar as crianças sobre como por a mesa, como servir os alimentos, ensinando várias regras de etiqueta, aconselhando as crianças a não saírem da mesa enquanto todos não tivessem acabado a refeição e coisas assim. Ensinou também muito sobre fé e religião, orientando-as espiritualmente. Foi ela quem presenteou a Cecília em sua Primeira Comunhão com um terço de prata. E mais tarde foi sua madrinha de casamento, vestida de veludo azul, linda. A neta também ressalta como a avó escrevia bem, até fez uma poesia para sua nora Flora quando seu filho estava para se casar. Era atenciosíssima com todos, e esperava receber atenções de todos.
Até o fim de sua vida ela teve a companhia da zelosa Nina, uma negra forte e bonita que tinha sido empregada de sua filha Dulce, na época de seus filhos pequenos; ficou como uma babá para Isolina, faziam tudo uma pela outra.
Nos últimos anos, sofreu muito, estava sempre acamada, era hospitalizada frequentemente, foi apagando a luz da Isolina. Morreu em outubro de 1998.
Lembrando o que ela havia significado na minha vida adulta, senti que estava perdendo uma amiga querida.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
ISOLINA - A FILHA DO MEIO
Pelas minhas contas, ela nasceu no ano de 1905, em novembro. Preciso me informar com meus primos e primas, pois não sei exatamente em que local ela nasceu, acho que não era ainda Araraquara o lugar onde Gino, Tudinha e Leonilda moravam.
Imagino que, quando criança, ela fosse já como era quando adulta, risonha, alegre, inquieta, meio espevitada até, sabe esse tipo de gente que transborda? Pouquíssimo sei sobre sua infância, mas a mãe delas era rígida na educação, preservava muito a paz entre as irmãs e avisava:
- se vocês brigarem, não vou querer saber quem tem razão ou quem começou a briga, apanham
as três, não adianta indicar culpados, pois quando um não quer, dois ou três não brigam.
Hoje em dia, com tantas informações sobre psicologia que a gente tem, fico imaginando por quantos traumas e tristezas poderá ter passado a menina Isolina, sendo, como se diz, o filho "presunto do sanduiche", sem as regalias da mais velha nem as prerrogativas da caçula, minha mãe,que nasceu antes de passados tres anos da sua chegada a este mundo. E ela era ingênua, crédula, chegava a ser simplória em muitos aspectos, embora também fosse atrevida e maliciosa em tantos assuntos; talvez fosse fácil enganá-la em certos casos, no campo filosófico, mas seria impossível ludibriá-la naquelas questões mais palpáveis da vida diária, aí ela era espertíssima, prática, atirada, ia procurar saber e aprender, não tinha medos antecipados.
E sua meninice acabou muito cedo. Havia um parente meio distante da Tudinha, mãe da Isolina, Sr. Júlio Rodrigues, de 33 anos, que havia ficado viúvo recentemente, com 3 filhas, sendo a filha mais velha com 12 anos. Nessa época Isolina estava com 15 anos. Era bem desenvolvida de corpo, pode-se dizer que era a mais opulenta das irmãs, cheínha, de formas arredondadas, pele clara e viçosa, riso fácil e olhos marotos. Minha mãe, anos e anos depois, dizia a respeito dela: a Lina era formosa! Ela sempre usava esse mesmo adjetivo, não era "bonita" ou "linda", sempre "formosa". Talvez a de menor beleza convencional, mas certamente a mais vistosa das três irmãs. E Julinho se apercebeu da menina, acho que sem que ninguém se desse conta ele a cobriu de olhares e discretas gentilezas, e ela se interessou.
Um dia, para surpresa dos seus pais, ele disse-lhes que estava enamorado dela, e queria pedir a eles a sua mão em casamento. Tanto Tudinha quanto seu marido Gino ficaram muito surpresos, argumentaram que ela era ainda uma criança, mas o confiante Júlio sugeriu a eles que perguntassem a ela, Isolina, se ela o aceitava como marido. Acho que meus avós concordaram em fazer isso porque tinham certeza de que sua filha, moleca e criançona como era, diria que não, fugiria às léguas de compromissos, nem cogitaria em se ligar àquele senhor. Mas qual não foi a surpresa deles! Quando a chamaram e lhe disseram:
- Lina, o Júlio diz que quer casar com você; você gostaria de se casar agora com ele?
E ela, sem titubear:
- eu quero!
Creio que seus pais acharam uma loucura, mas não vamos nos esquecer que estavámos no ano de 1921, tempos difíceis, conseguir casar uma filha virava tarefa não muito fácil para famílias que não frequentavam a sociedade e tinham pouquíssimas posses. E já conheciam o pretendente, sabiam que era um bom homem, trabalhador e sério, aparentado da família.
E não tiveram como dizer não, ainda mais notando o entusiasmo e os sorrisos mal disfarçados de sua menina.
Foi assim que Isolina se casou tão jovem, e já levou para seu início de vida matrimonial as tres enteadas, Julia, Ester e Isabel, que ficariam sob sua responsabilidade. Dizem que ela e a filha mais velha do Tio Júlio brincavam de boneca juntas em casa!
Ficaram casados até 1938, quando Tio Júlio morreu. Nessa época, o casal já tinha mais dois filhos, Dulce e Washington, este com apenas 10 anos de idade.
Imagino que, quando criança, ela fosse já como era quando adulta, risonha, alegre, inquieta, meio espevitada até, sabe esse tipo de gente que transborda? Pouquíssimo sei sobre sua infância, mas a mãe delas era rígida na educação, preservava muito a paz entre as irmãs e avisava:
- se vocês brigarem, não vou querer saber quem tem razão ou quem começou a briga, apanham
as três, não adianta indicar culpados, pois quando um não quer, dois ou três não brigam.
Hoje em dia, com tantas informações sobre psicologia que a gente tem, fico imaginando por quantos traumas e tristezas poderá ter passado a menina Isolina, sendo, como se diz, o filho "presunto do sanduiche", sem as regalias da mais velha nem as prerrogativas da caçula, minha mãe,que nasceu antes de passados tres anos da sua chegada a este mundo. E ela era ingênua, crédula, chegava a ser simplória em muitos aspectos, embora também fosse atrevida e maliciosa em tantos assuntos; talvez fosse fácil enganá-la em certos casos, no campo filosófico, mas seria impossível ludibriá-la naquelas questões mais palpáveis da vida diária, aí ela era espertíssima, prática, atirada, ia procurar saber e aprender, não tinha medos antecipados.
E sua meninice acabou muito cedo. Havia um parente meio distante da Tudinha, mãe da Isolina, Sr. Júlio Rodrigues, de 33 anos, que havia ficado viúvo recentemente, com 3 filhas, sendo a filha mais velha com 12 anos. Nessa época Isolina estava com 15 anos. Era bem desenvolvida de corpo, pode-se dizer que era a mais opulenta das irmãs, cheínha, de formas arredondadas, pele clara e viçosa, riso fácil e olhos marotos. Minha mãe, anos e anos depois, dizia a respeito dela: a Lina era formosa! Ela sempre usava esse mesmo adjetivo, não era "bonita" ou "linda", sempre "formosa". Talvez a de menor beleza convencional, mas certamente a mais vistosa das três irmãs. E Julinho se apercebeu da menina, acho que sem que ninguém se desse conta ele a cobriu de olhares e discretas gentilezas, e ela se interessou.
Um dia, para surpresa dos seus pais, ele disse-lhes que estava enamorado dela, e queria pedir a eles a sua mão em casamento. Tanto Tudinha quanto seu marido Gino ficaram muito surpresos, argumentaram que ela era ainda uma criança, mas o confiante Júlio sugeriu a eles que perguntassem a ela, Isolina, se ela o aceitava como marido. Acho que meus avós concordaram em fazer isso porque tinham certeza de que sua filha, moleca e criançona como era, diria que não, fugiria às léguas de compromissos, nem cogitaria em se ligar àquele senhor. Mas qual não foi a surpresa deles! Quando a chamaram e lhe disseram:
- Lina, o Júlio diz que quer casar com você; você gostaria de se casar agora com ele?
E ela, sem titubear:
- eu quero!
Creio que seus pais acharam uma loucura, mas não vamos nos esquecer que estavámos no ano de 1921, tempos difíceis, conseguir casar uma filha virava tarefa não muito fácil para famílias que não frequentavam a sociedade e tinham pouquíssimas posses. E já conheciam o pretendente, sabiam que era um bom homem, trabalhador e sério, aparentado da família.
E não tiveram como dizer não, ainda mais notando o entusiasmo e os sorrisos mal disfarçados de sua menina.
Foi assim que Isolina se casou tão jovem, e já levou para seu início de vida matrimonial as tres enteadas, Julia, Ester e Isabel, que ficariam sob sua responsabilidade. Dizem que ela e a filha mais velha do Tio Júlio brincavam de boneca juntas em casa!
Ficaram casados até 1938, quando Tio Júlio morreu. Nessa época, o casal já tinha mais dois filhos, Dulce e Washington, este com apenas 10 anos de idade.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
IN THE MOOD
Meu sobrinho Dodô - o Antônio Augusto, filho da minha irmã Maria Helena e seu marido, Geraldo Orsini - foi uma das pessoas que me estimularam a escrever estes registros de memórias sobre nossa família. Quando argumentei que talvez fosse uma empreitada grande demais para mim, ele disse:
- Força, tia, se você escrever só uma página por dia, no final do ano haverá um calhamaço de folhas escritas. E eu comecei.
Mas não é bem assim. Meu relato aqui é essencialmente sobre pessoas, sobre a maneira de ser e agir das pessoas da família, muito mais do que só os fatos relacionados a essas pessoas, o importante, a meu ver, é o ser humano dentro de cada acontecimento. E, se eu quero falar das pessoas da minha família para deixar um registro de como eu as vi e as vejo no contexto da vida familiar, é preciso que eu esteja bem, é importante que eu não esteja amarga, ou irritada, ou desiludida enquanto escrevo. Se eu não estiver bem de humor, certamente vou deixar transparecer isso na descrição dessas criaturas e de suas ações, o que não pretendo.
Quero contar aqui sobre cada um dos que fazem e fizeram parte desta minha história da melhor forma que eu puder. Não que eu pretenda inventar qualidades para eles, mas quero sim ressaltar o que de bom eu vi neles e soube a respeito deles.
Então, como bem diz o inglês, é preciso estar "in the mood" para relembrar, para trazer memórias do passado. É preciso estar bem disposto, com vontade de escrever, de emergir das profundezas do pensamento as lembranças, os casos, os fatos, os cheiros, os sentimentos.
E não é sempre que me encontro assim. Há dias em que me sinto do lado escuro de mim, sem paciência para pessoas, nem para as próximas e contemporâneas nem para as distantes no tempo e no espaço; sem condescendência para os deslizes ou maus comportamentos de ninguém, sem complacência nem compaixão para desculpar nada nem ninguém. Nesses dias, é melhor ficar distante do computador, para não deixar destilar nenhum veneno sobre algum personagem que, num bom dia, num humor melhor, pode ser retratado mais bonitinho.
Isto acabou ficando como uma confissão, uma demonstração cabal de que, se passo vários dias sem escrever, na maioria das vezes, é porque não estou com disposição mesmo. Claro que há outros fatores, compromissos, computador com problemas, outros afazeres que requeiram mais tempo, que podem atrapalhar também.
Mas, o mais importante, é estar "in the mood" para relembrar e falar de pessoas.
- Força, tia, se você escrever só uma página por dia, no final do ano haverá um calhamaço de folhas escritas. E eu comecei.
Mas não é bem assim. Meu relato aqui é essencialmente sobre pessoas, sobre a maneira de ser e agir das pessoas da família, muito mais do que só os fatos relacionados a essas pessoas, o importante, a meu ver, é o ser humano dentro de cada acontecimento. E, se eu quero falar das pessoas da minha família para deixar um registro de como eu as vi e as vejo no contexto da vida familiar, é preciso que eu esteja bem, é importante que eu não esteja amarga, ou irritada, ou desiludida enquanto escrevo. Se eu não estiver bem de humor, certamente vou deixar transparecer isso na descrição dessas criaturas e de suas ações, o que não pretendo.
Quero contar aqui sobre cada um dos que fazem e fizeram parte desta minha história da melhor forma que eu puder. Não que eu pretenda inventar qualidades para eles, mas quero sim ressaltar o que de bom eu vi neles e soube a respeito deles.
Então, como bem diz o inglês, é preciso estar "in the mood" para relembrar, para trazer memórias do passado. É preciso estar bem disposto, com vontade de escrever, de emergir das profundezas do pensamento as lembranças, os casos, os fatos, os cheiros, os sentimentos.
E não é sempre que me encontro assim. Há dias em que me sinto do lado escuro de mim, sem paciência para pessoas, nem para as próximas e contemporâneas nem para as distantes no tempo e no espaço; sem condescendência para os deslizes ou maus comportamentos de ninguém, sem complacência nem compaixão para desculpar nada nem ninguém. Nesses dias, é melhor ficar distante do computador, para não deixar destilar nenhum veneno sobre algum personagem que, num bom dia, num humor melhor, pode ser retratado mais bonitinho.
Isto acabou ficando como uma confissão, uma demonstração cabal de que, se passo vários dias sem escrever, na maioria das vezes, é porque não estou com disposição mesmo. Claro que há outros fatores, compromissos, computador com problemas, outros afazeres que requeiram mais tempo, que podem atrapalhar também.
Mas, o mais importante, é estar "in the mood" para relembrar e falar de pessoas.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
MAIS SOBRE A VÓ TUDINHA
Como já falei, ela era um amor de avó. E diziam que ela tinha suas preferências por alguns netos, seus "elefantes sagrados" era a expressão usada. Ela adorava o Heitor, talvez por ter convivido mais estreitamente com ele na infância. Mas seu "elefante sagrado" era o Luciano; com temperamento mais calmo que o dos dois outros irmãos homens, era mais atencioso, mais cordial, mais alegre e risonho. Ao Luciano tudo ela desculpava, tudo justificava, atenuava. E assim foi a vida toda.
E eu fui seu outro "elefante sagrado"; ela não titubeava em dar tapas na boca de quem dissesse o menor palavrão, mas contam que comigo teve condescendência. Eu deveria ter uns 2 ou 3 anos, cheguei na cozinha e limpei o nariz no seu avental; tomei uma bronca:
- menina porcalhona, atrevida, onde já se viu limpar o nariz no avental da gente???!!
e eu respondi, para surpresa e apreensão geral:
- ah, vovó, vá à "meida"!
Todos que se encontravam perto ficaram mudos, a espera da reação dela; que apenas fez cara de espanto e escondeu o rosto para dar risada, sem uma repreensão sequer. Aí ficou decretada a preferência: a Sílvia podia fazer tudo que quisesse que a vovó relevava. É claro que não era tanto assim, mas na verdade meu relacionamento com ela foi sempre maravilhoso, eu a adorava, ficava ao seu redor, fazia tudo junto com ela. Os anos foram passando e nossa cumplicidade só se consolidava. Já adolescente, ela ia fazer a bainha da saia do meu uniforme de escola, minha mãe marcava tantos dedos abaixo do joelho, eu ia reclamar, ela piscava pra mim, e depois me dizia:
- deixa, meu coração, eu encurto um pouco e ela nem vai perceber.
Em compensação, quando a minha mãe não deixava dar caipirinha pra ela por causa da pressão alta, eu arranjava jeito de surripiar um golinho numa xícara e levava escondido. Sempre sua pressão arterial foi alta, precisava comer com menos sal do que a comida do resto do pessoal, então minha mãe fazia as coisas pra ela bem temperadas com alho e cebola e pimenta e cebolinha e salsinha, para desfarçar a falta do sal; e foi assim, comendo com ela da comidinha dela, que aprendi a não gostar de nada salgado.
A velhinha era chegada numa "chiboca" (ou "xiboca"?), feita com uma boa pinguinha. Não existe essa palavra no dicionário, mas assim chamávamos caipirinha em Rio Preto. Mesmo depois que a vovó quebrou a perna e não andava mais, sempre havia uma bebidinha qualquer em seu criado-mudo, guardadinha para um momento em que ela queria tomar um golezinho. Ou era um licor, um vermute, um vinhozinho. Ela bebia bem pouquinho, era só um gole, mas não podia faltar, estalava a língua, apreciava mesmo.
Lembro que ela gostava muito, ficava feliz quando ouvia anunciar, batia palmas de alegria, quando via a Angela Maria começar a cantar. Tenho essa lembrança linda da minha avó, ainda agora nítida na minha memória, sentadinha na cadeirinha de rodas que o Luciano fez pra ela, com os olhinhos verdes brilhando e batendo palmas porque ia ver cantar a Angela Maria. Tudo que a Angela cantasse ela achava maravilhoso, mas a Ave Maria no Morro a fazia chorar mesmo.
E ela própria era afinadíssima, quando cantava junto com minha mãe ou minhas irmãs, sempre fazia uma segunda voz ou um contra-canto, muito lindo.
Antes de virmos definitivamente para São Paulo, na época em que ficamos em Araraquara na casa do Tio Flamínio, todas as quartas-feiras eu ia com ela, a pé, para o centro da cidade, para a Catedral, onde havia a celebração da novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Eram umas duas horas de novena - nunca acabava, faziam as nove quartas-feiras e na semana seguinte se começava de novo - com algumas orações faladas e muitas cantadas; a igreja toda cantava, ficava cheia toda semana, era lindo porque ficava um coro potente, muito afinado, um grupo fazia a segunda voz, íamos embora pra casa com aqueles cantos ainda ecoando nos nossos ouvidos, íamos as duas cantando pelo caminho de volta.
Já em São Paulo, após a morte do meu pai, ela ia todos os domingos, bem cedo, sozinha, a pé, de tailleur e sapato alto de salto tacão, para a missa na Capela do Colégio Cristo Rei, onde estudei.
Até o finalzinho de sua vida sempre trabalhou. Tinha as mãos calejadas e grosseiras de quem sempre trabalhou pesado na vida. Pedia que eu a levasse para o banheiro na sua cadeira de rodas - o Luciano pegou uma poltroninha com o espaldar baixo e arredondado, que se estendia para as partes das laterais do corpo, como se fossem braços da cadeira; pôs umas rodinhas (como uns rodízios) nela, era bem estofadinha, e a gente empurrava a velhinha acima e abaixo. Pois ela escondia umas roupinhas sujas para ir lavá-las no bidê, só porque não acostumava a ficar sem fazer nada; minha mãe passava e dizia:
- Vó, por que não me deu essas roupas para lavar junto com o resto? (minha mãe a chamava muitas vezes de "vó", como os filhos chamavam)
e ela respondia:
- não, minha filha, foram só umas pecinhas que ficaram perdidas na cama e eu não percebi........
Era a Vó Tudinha a encarregada de todas as costuras e consertos e remendos de todas as roupas de todos da família. Sem ter feito curso algum, sabia tudo sobre costuras e moldes e cortes. Até hoje na família, quando alguém consegue fazer algo que fique bom nessa área, diz que teve auxílio do espírito da Vó Tudinha.
Tenho ainda na memória o vestido que ela me fez, justinho, com uma sobressaia um pouco mais curta e aberta na frente, vestia como uma luva. Era um vestido de festa, de um acetinado estampadinho bem delicado, em tom claro. Como já estava com a perna quebrada, costurou tudo, absolutamente tudo na mão, com o maior capricho, extrema perfeição. Fez pontos tão iguais e firmes que ninguém percebia que não tinha sido costurado à máquina. Danada a velhinha!
Tinha ciume de suas coisas, não gostava de emprestar, dizia que o pessoal estragava tudo, não tinha o devido cuidado. Muitas vezes a Beatriz pegava alguma roupa dela escondido, como um agasalho ou um cachecol, na gaveta da cômoda que ficava no quarto, mas se ela percebesse dava a bronca. Para mim, emprestava sem reclamar, e é claro que eu tomava um cuidado redobrado com tudo, para não perder sua confiança.
Foi uma doce e adorável velhinha. Todos os netos e bisnetos gostavam muito dela, iam sempre visitá-la, levavam presentes. Outra neta que era xodó dela era a Lúcia, filha da Tia Nilda, ela achava a Lúcia linda, chamava-a de "minha morena", orgulhava-se da neta, dos concursos de beleza que ela ganhava, guardava fotos e recortes de revistas com notícias sobre ela.
Não deixava ninguém falar mal de ninguém, nunca. Se você começasse a criticar alguém, lá vinha a - como dizia meu pai - Advogada de Defesa! sempre tinha uma justificativa para a pessoa, nunca tinha sido bem assim tão grave como pareceu o que a pessoa fez. Ninguém era feio, ela conseguia achar nem que fosse um fio de cabelo bonito, um cachinho, a cor da pele, o redondinho do joelho, nunca ela concordava que fulana ou fulano fosse feio.
Quando você ficava insistindo com alguma coisa, atrapalhando, importunando, o auge de irritação que ela alcançava era quando batia os pezinhos e:
- sai daqui, menina, "su ursa"! "Su ursa" era o máximo do xingamento pra gente!
E se ela ficasse mesmo muito, mas muito irritada, sabe, caso de martelar o dedo ou perder o ponto da calda, aí ela soltava um sonoro "Berda Merda"! seja lá o que for que isso significasse.
Ela morreu com 87 ou 89 anos, não tenho certeza, morávamos na Rua Sud Menucci na Vila Mariana em São Paulo. Eu tinha pouco mais de dezessete anos, trabalhava na Executives que, nessa época, tinha escritórios na suite de um Hotel na Av. Nove de Julho. Eu, que era avessa a formalidades, a fazer coisas só porque era convenção geral, tive vontade de fazer isso, e fiz: No dia seguinte à morte dela fui trabalhar toda de preto, porque eu me sentia em luto.
Chorei a morte dela por muito tempo, senti saudade, muita saudade, tudo me lembrava a minha avozinha. Recordo-me que até me senti um pouco culpada porque sofri muito mais com a morte dela do que havia sofrido, três anos antes, com a do meu próprio pai.
Por tudo isso foi que disse no início que Gertrudes Ramalho Pochini, a esposa de Gino Pochini, não foi um mero acessório em nossa história. No que tange à minha história, especificamente, ela desempenhou um papel primordial. E é personagem inesquecível.
E eu fui seu outro "elefante sagrado"; ela não titubeava em dar tapas na boca de quem dissesse o menor palavrão, mas contam que comigo teve condescendência. Eu deveria ter uns 2 ou 3 anos, cheguei na cozinha e limpei o nariz no seu avental; tomei uma bronca:
- menina porcalhona, atrevida, onde já se viu limpar o nariz no avental da gente???!!
e eu respondi, para surpresa e apreensão geral:
- ah, vovó, vá à "meida"!
Todos que se encontravam perto ficaram mudos, a espera da reação dela; que apenas fez cara de espanto e escondeu o rosto para dar risada, sem uma repreensão sequer. Aí ficou decretada a preferência: a Sílvia podia fazer tudo que quisesse que a vovó relevava. É claro que não era tanto assim, mas na verdade meu relacionamento com ela foi sempre maravilhoso, eu a adorava, ficava ao seu redor, fazia tudo junto com ela. Os anos foram passando e nossa cumplicidade só se consolidava. Já adolescente, ela ia fazer a bainha da saia do meu uniforme de escola, minha mãe marcava tantos dedos abaixo do joelho, eu ia reclamar, ela piscava pra mim, e depois me dizia:
- deixa, meu coração, eu encurto um pouco e ela nem vai perceber.
Em compensação, quando a minha mãe não deixava dar caipirinha pra ela por causa da pressão alta, eu arranjava jeito de surripiar um golinho numa xícara e levava escondido. Sempre sua pressão arterial foi alta, precisava comer com menos sal do que a comida do resto do pessoal, então minha mãe fazia as coisas pra ela bem temperadas com alho e cebola e pimenta e cebolinha e salsinha, para desfarçar a falta do sal; e foi assim, comendo com ela da comidinha dela, que aprendi a não gostar de nada salgado.
A velhinha era chegada numa "chiboca" (ou "xiboca"?), feita com uma boa pinguinha. Não existe essa palavra no dicionário, mas assim chamávamos caipirinha em Rio Preto. Mesmo depois que a vovó quebrou a perna e não andava mais, sempre havia uma bebidinha qualquer em seu criado-mudo, guardadinha para um momento em que ela queria tomar um golezinho. Ou era um licor, um vermute, um vinhozinho. Ela bebia bem pouquinho, era só um gole, mas não podia faltar, estalava a língua, apreciava mesmo.
Lembro que ela gostava muito, ficava feliz quando ouvia anunciar, batia palmas de alegria, quando via a Angela Maria começar a cantar. Tenho essa lembrança linda da minha avó, ainda agora nítida na minha memória, sentadinha na cadeirinha de rodas que o Luciano fez pra ela, com os olhinhos verdes brilhando e batendo palmas porque ia ver cantar a Angela Maria. Tudo que a Angela cantasse ela achava maravilhoso, mas a Ave Maria no Morro a fazia chorar mesmo.
E ela própria era afinadíssima, quando cantava junto com minha mãe ou minhas irmãs, sempre fazia uma segunda voz ou um contra-canto, muito lindo.
Antes de virmos definitivamente para São Paulo, na época em que ficamos em Araraquara na casa do Tio Flamínio, todas as quartas-feiras eu ia com ela, a pé, para o centro da cidade, para a Catedral, onde havia a celebração da novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Eram umas duas horas de novena - nunca acabava, faziam as nove quartas-feiras e na semana seguinte se começava de novo - com algumas orações faladas e muitas cantadas; a igreja toda cantava, ficava cheia toda semana, era lindo porque ficava um coro potente, muito afinado, um grupo fazia a segunda voz, íamos embora pra casa com aqueles cantos ainda ecoando nos nossos ouvidos, íamos as duas cantando pelo caminho de volta.
Já em São Paulo, após a morte do meu pai, ela ia todos os domingos, bem cedo, sozinha, a pé, de tailleur e sapato alto de salto tacão, para a missa na Capela do Colégio Cristo Rei, onde estudei.
Até o finalzinho de sua vida sempre trabalhou. Tinha as mãos calejadas e grosseiras de quem sempre trabalhou pesado na vida. Pedia que eu a levasse para o banheiro na sua cadeira de rodas - o Luciano pegou uma poltroninha com o espaldar baixo e arredondado, que se estendia para as partes das laterais do corpo, como se fossem braços da cadeira; pôs umas rodinhas (como uns rodízios) nela, era bem estofadinha, e a gente empurrava a velhinha acima e abaixo. Pois ela escondia umas roupinhas sujas para ir lavá-las no bidê, só porque não acostumava a ficar sem fazer nada; minha mãe passava e dizia:
- Vó, por que não me deu essas roupas para lavar junto com o resto? (minha mãe a chamava muitas vezes de "vó", como os filhos chamavam)
e ela respondia:
- não, minha filha, foram só umas pecinhas que ficaram perdidas na cama e eu não percebi........
Era a Vó Tudinha a encarregada de todas as costuras e consertos e remendos de todas as roupas de todos da família. Sem ter feito curso algum, sabia tudo sobre costuras e moldes e cortes. Até hoje na família, quando alguém consegue fazer algo que fique bom nessa área, diz que teve auxílio do espírito da Vó Tudinha.
Tenho ainda na memória o vestido que ela me fez, justinho, com uma sobressaia um pouco mais curta e aberta na frente, vestia como uma luva. Era um vestido de festa, de um acetinado estampadinho bem delicado, em tom claro. Como já estava com a perna quebrada, costurou tudo, absolutamente tudo na mão, com o maior capricho, extrema perfeição. Fez pontos tão iguais e firmes que ninguém percebia que não tinha sido costurado à máquina. Danada a velhinha!
Tinha ciume de suas coisas, não gostava de emprestar, dizia que o pessoal estragava tudo, não tinha o devido cuidado. Muitas vezes a Beatriz pegava alguma roupa dela escondido, como um agasalho ou um cachecol, na gaveta da cômoda que ficava no quarto, mas se ela percebesse dava a bronca. Para mim, emprestava sem reclamar, e é claro que eu tomava um cuidado redobrado com tudo, para não perder sua confiança.
Foi uma doce e adorável velhinha. Todos os netos e bisnetos gostavam muito dela, iam sempre visitá-la, levavam presentes. Outra neta que era xodó dela era a Lúcia, filha da Tia Nilda, ela achava a Lúcia linda, chamava-a de "minha morena", orgulhava-se da neta, dos concursos de beleza que ela ganhava, guardava fotos e recortes de revistas com notícias sobre ela.
Não deixava ninguém falar mal de ninguém, nunca. Se você começasse a criticar alguém, lá vinha a - como dizia meu pai - Advogada de Defesa! sempre tinha uma justificativa para a pessoa, nunca tinha sido bem assim tão grave como pareceu o que a pessoa fez. Ninguém era feio, ela conseguia achar nem que fosse um fio de cabelo bonito, um cachinho, a cor da pele, o redondinho do joelho, nunca ela concordava que fulana ou fulano fosse feio.
Quando você ficava insistindo com alguma coisa, atrapalhando, importunando, o auge de irritação que ela alcançava era quando batia os pezinhos e:
- sai daqui, menina, "su ursa"! "Su ursa" era o máximo do xingamento pra gente!
E se ela ficasse mesmo muito, mas muito irritada, sabe, caso de martelar o dedo ou perder o ponto da calda, aí ela soltava um sonoro "Berda Merda"! seja lá o que for que isso significasse.
Ela morreu com 87 ou 89 anos, não tenho certeza, morávamos na Rua Sud Menucci na Vila Mariana em São Paulo. Eu tinha pouco mais de dezessete anos, trabalhava na Executives que, nessa época, tinha escritórios na suite de um Hotel na Av. Nove de Julho. Eu, que era avessa a formalidades, a fazer coisas só porque era convenção geral, tive vontade de fazer isso, e fiz: No dia seguinte à morte dela fui trabalhar toda de preto, porque eu me sentia em luto.
Chorei a morte dela por muito tempo, senti saudade, muita saudade, tudo me lembrava a minha avozinha. Recordo-me que até me senti um pouco culpada porque sofri muito mais com a morte dela do que havia sofrido, três anos antes, com a do meu próprio pai.
Por tudo isso foi que disse no início que Gertrudes Ramalho Pochini, a esposa de Gino Pochini, não foi um mero acessório em nossa história. No que tange à minha história, especificamente, ela desempenhou um papel primordial. E é personagem inesquecível.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
A VOVÓ TUDINHA
Preciso começar a corrigir uma distorção aqui. Até agora o foco ficou na figura do meu avô, Gino Pochini, dando a impressão de que sua esposa, Gertrudes Ramalho Pochini, teria sido um mero acessorio da vida dele, sem vida própria. Pode até ter sido, no aspecto intelectual; ela não era letrada, não tinha estudo. Mas, certamente, a pequenina Tuda tinha brilho próprio. Imagino que tenha sido uma moça bonitinha, creio que seus olhos esverdeados eram seu ponto alto na questão "visual". Não consigo imaginar como seria a vida do casal, provavelmente eles se tratavam por "senhor" e "senhora"; até o final dos seus dias, ela era muito envergonhada, pudica, recatadíssima, tudo o que se relacionasse, por mais veladamente que fosse, a sexo, sem dúvida, seria assunto tabu. Até a palavra "gravidez" dizia em tom baixo, como algo que não se alardeia.
Mas, após a morte do marido,com certeza revelou-se a fortaleza dela, no comando da vida de três meninas-moças, órfãs pobres. Ouvi sempre que Tio Flamínio assumiu o grosso das despesas delas quatro, mas sei que a filha mais velha logo foi trabalhar, e a vovó se desdobrava nas tarefas caseiras, tudo tão difícil naquela época, sem dúvida auxiliando também na casa da cunhada, Tia Mariquinha - mulher do Tio Flamínio - de quem só ouvi, até hoje, falar elogios. Não me lembro se a mencionei antes, eu a conheci já velha e cega pela diabetes, uma senhora alta e extremamente bondosa. Minha mãe dizia que ela acolhia e cuidava de doentes pobres, prostitutas grávidas, qualquer um, por mais miserável que fosse, que batesse à sua porta, jamais sairia sem auxílio.
Pois bem, nesse cenário, estou convicta de que minha avozinha deva ter sido uma ajudante e tanto para sua cunhada Mariquinha, ela também era muito solícita para ajudar os necessitados, e sempre teve muito carinho pela mulher de seu irmão, até o fim da vida.
Depois que a terceira filha se casou, ela passou a viver com as filhas, sempre havia uma esperando nenê, sempre havia uma criança que requeria mais cuidados, sempre havia alguém doente, e lá estava ela ajudando. Nunca teve sua própria casa, estava sempre onde precisassem dela.
Até me lembro que, bem pequena, em Rio Preto, eu ficava com inveja das minhas amigas que iam para a casa da avó para passar férias ou fins-de-semana, pois minhas duas avós moravam conosco, eu não tinha casa da avó para ir.
Minha mãe teve oito filhos, Tia Lina teve dois, Tia Nilda teve seis, façam as contas de quantas vezes ela ficou acompanhando grávidas e bebês recém-nascidos. Isso sem contar as ocasiões em que havia algo de especial como, por exemplo, com meu irmão Heitor. Minha mãe engravidou imediatamente após o nascimento dele, apenas um ano e um mês ele tinha quando nasceu a Maria Helena. E Heitor teve algum sério problema de saúde, não sei agora o que, mas isso fez com que a Vovó Tudinha viajasse com ele para alguns locais de bom clima que fizessem bem à saúde dele; e ela ficou com o Totó - como ela dizia - mais de um ano, cuidando dele sozinha, enquanto minha mãe permanecia em casa com a nenê recém-nascida e mais dois meninos também pequenos, Luciano com 3 anos e Sérgio com 5. Era um tempo de muitas crianças! Todas as Pochini eram muito católicas, só evitavam filhos por métodos naturais - tabelinha e distãncia dos maridos. E ainda estava longe o tempo em que se inventaram as pílulas anticoncepcionais.
Pelo que me lembro, meu pai e a Vó Tudinha tinham um relacionamento que eu não sei muito bem se era atritoso mesmo ou só de constantes cotucadas. Eles não brigavam, mas viviam em perene estado de peleja, meio na brincadeira, meio sério, ela dizia:
- ah, o Senhor é muito implicante!
mas continuava fazendo o que estava fazendo.
E ele dizia:
- essa velha com esse nariz de apagar-vela! vai, dona Tudinha, vai........
(Não sei se ainda existe, provavelmente nenhum de vocês que me leem jamais sequer ouviu falar, quanto mais viu de fato, um apagador de velas. Era uma peça de metal, no formato mesmo de um nariz grande (mas sem a divisão do meio das narinas), colocada na ponta de um pau, como se fosse um cabo de vassoura bem comprido; com isso, se apagavam as velas que estavam acesas lá no alto dos altares nas igrejas, sem se precisar subir em escadas, bastava encaixar aquela capinha na ponta da vela, abafando a chama e o fogo se apagava.)
E ela, a Vovó, já bem velhota, tinha mesmo o nariz parecido com um apagador de vela! Por seu lado, meu pai era mesmo muito implicante, sempre foi.
Acho que ela não ficava de verdade brava com ele, logo estava levando algo para ele beber ou fazendo outra coisa qualquer para ele. E ele tinha muito respeito pela presença dela, havia coisas de que a vovó não gostava, como baralho, por exemplo, e ele respeitava, não se jogava baralho em casa enquanto a vovó estivesse acordada. Nunca presenciei atritos reais entre os dois.
Ela exercia muita autoridade com a criançada, e isso não se cogitava que pudesse ser mudado. Nem meu pai nem a mamãe ousavam desdizer uma ordem dela. Ao mesmo tempo que a gente contava com a benevolência da vovó para uma série de coisas - tudo que a gente precisasse ela fazia, passava a roupa que você queria usar, lavava com perfeição aquela blusa que você tivesse manchado, fazia os pratos que qualquer um tivesse vontade, encarregava-se de guardar um pedaço de algo que fosse servido na ausência de alguém, tinha sempre o melhor colinho para consolar após um tombo, sabia os melhores remedinhos para curar cólicas menstruais -
mas também sabíamos que ela era mais um par de olhos para vigiar se fizéssemos algo errado, se desobedecêssemos alguma ordem, se tentássemos alguma trapaça ou falcatrua com alguém: aí ela sabia ser dura no castigo, não poupava nada nem ninguém.
Bem, eu pretendia falar um pouco da amada Vó Tudinha. Mas percebi que, depois que comecei a pensar nela, tenho mais coisas para contar sobre ela do que posso agora, nesta noite.
Ela foi uma das pessoas que eu mais amei na minha vida, sua morte me causou uma das maiores tristezas que já sofri. Esta postagem não vai ser suficiente; vou precisar de mais espaço para ela.
Mas, após a morte do marido,com certeza revelou-se a fortaleza dela, no comando da vida de três meninas-moças, órfãs pobres. Ouvi sempre que Tio Flamínio assumiu o grosso das despesas delas quatro, mas sei que a filha mais velha logo foi trabalhar, e a vovó se desdobrava nas tarefas caseiras, tudo tão difícil naquela época, sem dúvida auxiliando também na casa da cunhada, Tia Mariquinha - mulher do Tio Flamínio - de quem só ouvi, até hoje, falar elogios. Não me lembro se a mencionei antes, eu a conheci já velha e cega pela diabetes, uma senhora alta e extremamente bondosa. Minha mãe dizia que ela acolhia e cuidava de doentes pobres, prostitutas grávidas, qualquer um, por mais miserável que fosse, que batesse à sua porta, jamais sairia sem auxílio.
Pois bem, nesse cenário, estou convicta de que minha avozinha deva ter sido uma ajudante e tanto para sua cunhada Mariquinha, ela também era muito solícita para ajudar os necessitados, e sempre teve muito carinho pela mulher de seu irmão, até o fim da vida.
Depois que a terceira filha se casou, ela passou a viver com as filhas, sempre havia uma esperando nenê, sempre havia uma criança que requeria mais cuidados, sempre havia alguém doente, e lá estava ela ajudando. Nunca teve sua própria casa, estava sempre onde precisassem dela.
Até me lembro que, bem pequena, em Rio Preto, eu ficava com inveja das minhas amigas que iam para a casa da avó para passar férias ou fins-de-semana, pois minhas duas avós moravam conosco, eu não tinha casa da avó para ir.
Minha mãe teve oito filhos, Tia Lina teve dois, Tia Nilda teve seis, façam as contas de quantas vezes ela ficou acompanhando grávidas e bebês recém-nascidos. Isso sem contar as ocasiões em que havia algo de especial como, por exemplo, com meu irmão Heitor. Minha mãe engravidou imediatamente após o nascimento dele, apenas um ano e um mês ele tinha quando nasceu a Maria Helena. E Heitor teve algum sério problema de saúde, não sei agora o que, mas isso fez com que a Vovó Tudinha viajasse com ele para alguns locais de bom clima que fizessem bem à saúde dele; e ela ficou com o Totó - como ela dizia - mais de um ano, cuidando dele sozinha, enquanto minha mãe permanecia em casa com a nenê recém-nascida e mais dois meninos também pequenos, Luciano com 3 anos e Sérgio com 5. Era um tempo de muitas crianças! Todas as Pochini eram muito católicas, só evitavam filhos por métodos naturais - tabelinha e distãncia dos maridos. E ainda estava longe o tempo em que se inventaram as pílulas anticoncepcionais.
Pelo que me lembro, meu pai e a Vó Tudinha tinham um relacionamento que eu não sei muito bem se era atritoso mesmo ou só de constantes cotucadas. Eles não brigavam, mas viviam em perene estado de peleja, meio na brincadeira, meio sério, ela dizia:
- ah, o Senhor é muito implicante!
mas continuava fazendo o que estava fazendo.
E ele dizia:
- essa velha com esse nariz de apagar-vela! vai, dona Tudinha, vai........
(Não sei se ainda existe, provavelmente nenhum de vocês que me leem jamais sequer ouviu falar, quanto mais viu de fato, um apagador de velas. Era uma peça de metal, no formato mesmo de um nariz grande (mas sem a divisão do meio das narinas), colocada na ponta de um pau, como se fosse um cabo de vassoura bem comprido; com isso, se apagavam as velas que estavam acesas lá no alto dos altares nas igrejas, sem se precisar subir em escadas, bastava encaixar aquela capinha na ponta da vela, abafando a chama e o fogo se apagava.)
E ela, a Vovó, já bem velhota, tinha mesmo o nariz parecido com um apagador de vela! Por seu lado, meu pai era mesmo muito implicante, sempre foi.
Acho que ela não ficava de verdade brava com ele, logo estava levando algo para ele beber ou fazendo outra coisa qualquer para ele. E ele tinha muito respeito pela presença dela, havia coisas de que a vovó não gostava, como baralho, por exemplo, e ele respeitava, não se jogava baralho em casa enquanto a vovó estivesse acordada. Nunca presenciei atritos reais entre os dois.
Ela exercia muita autoridade com a criançada, e isso não se cogitava que pudesse ser mudado. Nem meu pai nem a mamãe ousavam desdizer uma ordem dela. Ao mesmo tempo que a gente contava com a benevolência da vovó para uma série de coisas - tudo que a gente precisasse ela fazia, passava a roupa que você queria usar, lavava com perfeição aquela blusa que você tivesse manchado, fazia os pratos que qualquer um tivesse vontade, encarregava-se de guardar um pedaço de algo que fosse servido na ausência de alguém, tinha sempre o melhor colinho para consolar após um tombo, sabia os melhores remedinhos para curar cólicas menstruais -
mas também sabíamos que ela era mais um par de olhos para vigiar se fizéssemos algo errado, se desobedecêssemos alguma ordem, se tentássemos alguma trapaça ou falcatrua com alguém: aí ela sabia ser dura no castigo, não poupava nada nem ninguém.
Bem, eu pretendia falar um pouco da amada Vó Tudinha. Mas percebi que, depois que comecei a pensar nela, tenho mais coisas para contar sobre ela do que posso agora, nesta noite.
Ela foi uma das pessoas que eu mais amei na minha vida, sua morte me causou uma das maiores tristezas que já sofri. Esta postagem não vai ser suficiente; vou precisar de mais espaço para ela.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
COMUNE DI PONTEDERA

Conforme prometido da última vez, relato aqui hoje o que decifrei dos papéis encontrados junto às coisas guardadas da minha mãe.
São 5 cópias, uma em cada folha, de registros da Comune di Pontedera - que me parece ser uma localidade italiana. Como subtítulo, "Indice Mobile del Registro di Populazione". Em seguida vem os dados de cada morador.
São 5 cópias, uma em cada folha, de registros da Comune di Pontedera - que me parece ser uma localidade italiana. Como subtítulo, "Indice Mobile del Registro di Populazione". Em seguida vem os dados de cada morador.
Pesquisando na maravilhosa Internet, vi que Pontedera é uma cidade industrial na região Toscana, na Itália, na província administrativa de Pisa. Fica a 31 km de Pisa, na Itália Central.
Localiza-se no Vale do Arno, na confluência desse rio com o Era.
Tem perto de 46.000 km quadrados de área, e está a cerca de 14 m acima do nível do mar.
Seu nome originou-se de Ponte do Rio Era.
Vi também que Piombino, onde nasceu Leonilda, irmã de meu avô Gino, é uma linda cidade próxima à Ilha de Elba, com mais de 30 km de costa, no Mediterrâneo. É famosa por seus visitantes ilustres, como Leonardo da Vinci, e pelo governo da irmã de Napoleão, Elisa Bonaparte.
Hoje estou com quase 65 anos e nunca fui à Europa. Mas vendo a história e as fotos na Internet, especialmente de Piombino, fiquei com uma vontade enorme de viajar para lá, para esses cantos da Familia Pochini original, mergular nesse passado, respirar o mesmo ar que meus antepassados sorveram, ver coisas que os olhos deles viram; como se isso pudesse resgatar as vidas passadas, como se isso pudesse nos redimir do alheamento e da indiferença que mantivemos até aqui.
Hoje estou com quase 65 anos e nunca fui à Europa. Mas vendo a história e as fotos na Internet, especialmente de Piombino, fiquei com uma vontade enorme de viajar para lá, para esses cantos da Familia Pochini original, mergular nesse passado, respirar o mesmo ar que meus antepassados sorveram, ver coisas que os olhos deles viram; como se isso pudesse resgatar as vidas passadas, como se isso pudesse nos redimir do alheamento e da indiferença que mantivemos até aqui.
sábado, 14 de março de 2009
EXPOSIÇÃO DA FAMÍLIA
De repente fiquei preocupada com a exposição que estou fazendo dos meus familiares! Mesmo em tempos de Reallity Shows como os que vivemos, onde todos se expõem aos olhares e comentários, à bisbilhotice de milhões de expectadores em suas vidas. Essa gente, os Big Brothers e similares, se dispuseram a isso, fazem por dinheiro ou projeção, por fama e poder, ou seja lá por que for, mas quiseram isso. As pessoas sobre quem estou falando não escolheram se expor, não sabem que estão sendo comentadas, tendo suas vidas devassadas, segredos revelados, defeitos e características pessoais escancaradas ao público.
É certo que é só minha opinião, não são fornecidas provas ou documentos, mas posso estar sendo leviana quando dou os verdadeiros nomes dos meus familiares; até agora, falei de parentes que já se foram, mas que tem os seus descendentes vivendo aqui, contemporaneamente, e que podem ficar extremamente insatisfeitos com tudo isto.
Tenho que pensar a respeito. É claro que não falo aqui de fatos terríveis, taras ou aberrações - até porque não os há e, se houvesse, não mencionaria de público - mas há acontecimentos e passagens, em qualquer família, que podem ser desabonadoras; e os envolvidos talvez queiram o silêncio.
Sinto-me em uma encruzilhada, numa sinuca de bico. Por um lado, pondero tudo o que disse acima. Por outro, penso que qualquer pessoa deveria ter o direito de escrever a sua própria história, que começa com a história de seus antepassados e familiares que a precederam. Sem inventar e sem omitir, errando, talvez, exagerando algumas vezes, minimizando outras, mas isso por defeito próprio do escritor, ou de sua memória ou de sua avaliação dos fatos. Não acho que só os grandes vultos, só os ilustres e famosos devam merecer o privilégio de ter suas histórias reveladas; todos, mesmo os anônimos, medíocres, medianos, seres do povo, sem fama nem alarde podem, se alguém assim o desejar, virar personagens de alguma saga de família, ainda que sem grandes feitos e/ou idéias, mas podem ter suas vidas relatadas, tornadas conhecidas pelos membros dessa comunidade familiar que se interessarem por essas vidas. Se as criaturas realmente viveram suas vidas publicamente, não é por que está sendo escrito, por ser registrado, que fica mais real do que foi. Se os seus contemporâneos souberam dos fatos e acontecidos de suas vidas, não deveria importar que gerações futuras pudessem tomar conhecimento desses mesmos fatos.
Sei lá, estou confusa, com medo de ferir suscetibilidades; vou consultar algumas pessoas próximas, vou ouvir opiniões sobre isto, para que eu possa me sentir mais segura nestes meus relatos de memórias. Ou parar com eles.
Preciso de um tempo para isto.
No entanto, paralelamente a essas dúvidas todas, falei com um senhor Samuel Brasil Bueno, de Araraquara, que tem uma coluna num jornal local, O Imparcial, coluna essa que se chama "Seu nome está na Rua". Lá ele pesquisa a história dos homenageados com nomes de Ruas na Cidade de Araraquara.
Reproduzo abaixo o e-mail que mandei a ele.
Prezado Samuel:
Falei com você por telefone dias atrás, e gostaria de deixar registrado o teor de nossa conversa, para que você possa se lembrar dos detalhes e, assim, conseguir pesquisar dados a respeito da rua da Cidade de Araraquara com o nome de meu avô materno, Gino Pochini.
Meu nome é Sílvia Maria Prado Bolognani, moro atualmente em S. Vicente, litoral de S.Paulo. Somos uma família grande, meus pais tiveram 8 filhos, mas infelizmente não preservamos a memória de nossos antepassados, e eu estou muito interessada em descobrir fatos sobre o passado de minha família, e consertar um pouco essa lacuna de informações.
Minha mãe se chamava Aída Pochini Prado - Prado pelo casamento - e era a terceira e última filha de Gertrudes Ramalho Pochini e Gino Pochini. Minha avó Gertrudes era irmã de Flamínio Ramalho, de tradicional família de Araraquara. Sabemos que meu avô, Gino Pochini, veio da Itália para o Brasil bem jovem, não tenho certeza de onde exatamente ele era natural, talvez Florença, talvez fosse toscano. Minha mãe nasceu em 1908, e seu pai morreu quando ela era menina ainda, ou seja, cremos que ele morreu jovem, por volta do ano de 1916/1917.
Gino Pochini era um homem culto, era compositor e maestro, teve uma escola em Araraquara (minha mãe tinha uma foto bem antiga e amarelada de uma sala de aula onde ela era uma das alunas e o Professor, seu pai, aparecia perto do quadro ensinando a várias crianças.
Recentemente, em meio a pesquisas para encontrar coisas do passado de minha família, vi no Google Maps que há uma rua em Araraquara com o nome Gino Pochini. Falei por telefone com Marcelo Cavalcanti, do Expediente da Câmara dessa Cidade, o qual me informou:- o Decreto número 4.603, de 09.03.1982, foi o que deu o nome de Gino Pochini a uma rua do Jardim (ou Parque) Iguatemi.
Ele não soube me dizer quem fez essa proposição para conceder o nome à rua. Mas me deu seu nome e telefone, em função do seu trabalho no jornal referente a nomes de ruas.
Como tenho muito poucos dados a respeito desse meu avô, é aqui que entraria sua contribuição. Seria ótimo saber qualquer coisa a respeito dessa homenagem, o porque dela, quem sugeriu, como foi embasada essa sugestão, enfim, tudo que eu puder saber sobre esse personagem.
Tanto minha mãe como suas duas irmãs mais velhas já morreram, não temos muito a quem perguntar sobre esse passado.
Já dei uma olhada no Jornal O Imparcial, na Internet, na sua coluna "Seu nome está na Rua", superinteressante, aquelas fotos antigas me deram esperança de que, através de você, poderei saber algo mais sobre meu avô.
Estarei aguardando ansiosamente sua resposta. E desde já agradeço muitíssimo sua atenção e interesse.
Meu e-mail é silbolo@..............
Um abraço,
Sílvia M.Prado Bolognani
P.S.: desculpe ter demorado para enviar este e-mail, já falamos há vários dias, mas tive um problema no dedo da mão, fiquei engessada até hoje, e estava mais difícil para digitar.
SMPB
Esse e-mail foi enviado dia 9 de março, recebi uma confirmação de recebimento logo em seguida, mas nenhuma resposta até hoje.
Bem, se resolvo continuar com este meu projeto aqui, não me importa se tiver ou não mais informações, vou só registrando minhas lembranças pessoais mesmo, como já disse, sem preocupação com confirmação de datas, fatos e lugares; se eu conseguir dar um apanhado geral para os meus filhos, já será mais do que fizeram meus pais por mim e por meus irmãos, no tocante a este aspecto de nos fazer conhecer seus pais e avós.
Só mais uma coisa quero mencionar, que aconteceu nestes dias em que não escrevi aqui:
Para vender um carro que temos desde 1999, meu marido José e eu procuramos o Certificado de Transferência, e não encontramos. Já nos mudamos de casa - e de cidade - nesse entretempo, e o papel desapareceu. Sou normalmente muito organizada com nossos papéis, tenho um arquivo pessoal bem estruturado e sempre atualizado, mantenho registros de coisas antigas que considero importantes, tenho Notas Fiscais de produtos comprados há muitos e muitos anos, se o item ainda existe, a N.Fiscal está guardada. Assim, ter sumido um documento importante foi um baque para nós, além de significar um transtorno considerável, pois nos impossibilitaria a venda do auto no momento, demandaria ações junto ao Detran de São Paulo, demoradas e dispendiosas. Então, resolvi fazer uma varredura completa em todos os papéis da casa, ordenadamente, de cabo a rabo, sem deixar nada para trás, examinando mesmo os lugares mais improváveis.
Tudo isto para contar que, nessa busca, mexi em coisas que eram da minha mãe, vi lá uma porção de recordações que já tinha visto nalgum momento da minha vida, livros de poesias que ela escreveu na adolescência, tudo manuscrito, poesias das irmãs, cópias que foram tiradas por elas da partitura e letra do Hino a São Paulo, escrito pelo Vô Gino, todas as letras das músicas que minha mãe compôs, desde 1973, para as crianças da Família cantarem e tocarem no Natal, uma cadernetinha de endereços de bolso manuscrita por meu pai, com sua letra tão característica, enfim, tesouros que estão guardados junto com minhas fotos, pois ficaram em meu poder depois que mamãe morreu, já que ela morava na minha casa e tudo dela estava lá.
Só que, no meio de todas essas coisas que eu já conhecia, achei algo que não me lembro de jamais ter visto antes. Cinco meias folhas de papel tipo sulfite, onde foram copiados, xerocados, registros manuscritos, com letra bordada como em convites e diplomas antigos, em italiano, de pessoas residentes na localidade, Comune di Pontedera. Aparentemente, são registros dos habitantes, chamado Indice Mobile del Registro di Popolazione, com os nomes dos membros da Família Pochini.
Já é mais de meia-noite, estou com sono, na próxima postagem vou contar o que decifrei desses escritos e registros.
Ainda uma "coisinha" mais a deixar registrada, aqui neste espaço da minha Família. Há dois
dias, em 12.03.2009, nasceu na Pro-Matre na Capital de São Paulo, o Gabriel, com quase quatro quilos; filho de Luciana Prado Chasles e Daniel Gabbay, primeiro neto de minha irmã caçula, Lucia Edy Prado e seu ex-marido, Danilo Chasles. Mais um bisneto de Aída Pochini Prado e Domingos Prado, e mais um tataraneto de Gertrudes Ramalho Pochini e Gino Pochini.
Estamos todos muito felizes. A vida não para, a família se perpetua.
É certo que é só minha opinião, não são fornecidas provas ou documentos, mas posso estar sendo leviana quando dou os verdadeiros nomes dos meus familiares; até agora, falei de parentes que já se foram, mas que tem os seus descendentes vivendo aqui, contemporaneamente, e que podem ficar extremamente insatisfeitos com tudo isto.
Tenho que pensar a respeito. É claro que não falo aqui de fatos terríveis, taras ou aberrações - até porque não os há e, se houvesse, não mencionaria de público - mas há acontecimentos e passagens, em qualquer família, que podem ser desabonadoras; e os envolvidos talvez queiram o silêncio.
Sinto-me em uma encruzilhada, numa sinuca de bico. Por um lado, pondero tudo o que disse acima. Por outro, penso que qualquer pessoa deveria ter o direito de escrever a sua própria história, que começa com a história de seus antepassados e familiares que a precederam. Sem inventar e sem omitir, errando, talvez, exagerando algumas vezes, minimizando outras, mas isso por defeito próprio do escritor, ou de sua memória ou de sua avaliação dos fatos. Não acho que só os grandes vultos, só os ilustres e famosos devam merecer o privilégio de ter suas histórias reveladas; todos, mesmo os anônimos, medíocres, medianos, seres do povo, sem fama nem alarde podem, se alguém assim o desejar, virar personagens de alguma saga de família, ainda que sem grandes feitos e/ou idéias, mas podem ter suas vidas relatadas, tornadas conhecidas pelos membros dessa comunidade familiar que se interessarem por essas vidas. Se as criaturas realmente viveram suas vidas publicamente, não é por que está sendo escrito, por ser registrado, que fica mais real do que foi. Se os seus contemporâneos souberam dos fatos e acontecidos de suas vidas, não deveria importar que gerações futuras pudessem tomar conhecimento desses mesmos fatos.
Sei lá, estou confusa, com medo de ferir suscetibilidades; vou consultar algumas pessoas próximas, vou ouvir opiniões sobre isto, para que eu possa me sentir mais segura nestes meus relatos de memórias. Ou parar com eles.
Preciso de um tempo para isto.
No entanto, paralelamente a essas dúvidas todas, falei com um senhor Samuel Brasil Bueno, de Araraquara, que tem uma coluna num jornal local, O Imparcial, coluna essa que se chama "Seu nome está na Rua". Lá ele pesquisa a história dos homenageados com nomes de Ruas na Cidade de Araraquara.
Reproduzo abaixo o e-mail que mandei a ele.
Prezado Samuel:
Falei com você por telefone dias atrás, e gostaria de deixar registrado o teor de nossa conversa, para que você possa se lembrar dos detalhes e, assim, conseguir pesquisar dados a respeito da rua da Cidade de Araraquara com o nome de meu avô materno, Gino Pochini.
Meu nome é Sílvia Maria Prado Bolognani, moro atualmente em S. Vicente, litoral de S.Paulo. Somos uma família grande, meus pais tiveram 8 filhos, mas infelizmente não preservamos a memória de nossos antepassados, e eu estou muito interessada em descobrir fatos sobre o passado de minha família, e consertar um pouco essa lacuna de informações.
Minha mãe se chamava Aída Pochini Prado - Prado pelo casamento - e era a terceira e última filha de Gertrudes Ramalho Pochini e Gino Pochini. Minha avó Gertrudes era irmã de Flamínio Ramalho, de tradicional família de Araraquara. Sabemos que meu avô, Gino Pochini, veio da Itália para o Brasil bem jovem, não tenho certeza de onde exatamente ele era natural, talvez Florença, talvez fosse toscano. Minha mãe nasceu em 1908, e seu pai morreu quando ela era menina ainda, ou seja, cremos que ele morreu jovem, por volta do ano de 1916/1917.
Gino Pochini era um homem culto, era compositor e maestro, teve uma escola em Araraquara (minha mãe tinha uma foto bem antiga e amarelada de uma sala de aula onde ela era uma das alunas e o Professor, seu pai, aparecia perto do quadro ensinando a várias crianças.
Recentemente, em meio a pesquisas para encontrar coisas do passado de minha família, vi no Google Maps que há uma rua em Araraquara com o nome Gino Pochini. Falei por telefone com Marcelo Cavalcanti, do Expediente da Câmara dessa Cidade, o qual me informou:- o Decreto número 4.603, de 09.03.1982, foi o que deu o nome de Gino Pochini a uma rua do Jardim (ou Parque) Iguatemi.
Ele não soube me dizer quem fez essa proposição para conceder o nome à rua. Mas me deu seu nome e telefone, em função do seu trabalho no jornal referente a nomes de ruas.
Como tenho muito poucos dados a respeito desse meu avô, é aqui que entraria sua contribuição. Seria ótimo saber qualquer coisa a respeito dessa homenagem, o porque dela, quem sugeriu, como foi embasada essa sugestão, enfim, tudo que eu puder saber sobre esse personagem.
Tanto minha mãe como suas duas irmãs mais velhas já morreram, não temos muito a quem perguntar sobre esse passado.
Já dei uma olhada no Jornal O Imparcial, na Internet, na sua coluna "Seu nome está na Rua", superinteressante, aquelas fotos antigas me deram esperança de que, através de você, poderei saber algo mais sobre meu avô.
Estarei aguardando ansiosamente sua resposta. E desde já agradeço muitíssimo sua atenção e interesse.
Meu e-mail é silbolo@..............
Um abraço,
Sílvia M.Prado Bolognani
P.S.: desculpe ter demorado para enviar este e-mail, já falamos há vários dias, mas tive um problema no dedo da mão, fiquei engessada até hoje, e estava mais difícil para digitar.
SMPB
Esse e-mail foi enviado dia 9 de março, recebi uma confirmação de recebimento logo em seguida, mas nenhuma resposta até hoje.
Bem, se resolvo continuar com este meu projeto aqui, não me importa se tiver ou não mais informações, vou só registrando minhas lembranças pessoais mesmo, como já disse, sem preocupação com confirmação de datas, fatos e lugares; se eu conseguir dar um apanhado geral para os meus filhos, já será mais do que fizeram meus pais por mim e por meus irmãos, no tocante a este aspecto de nos fazer conhecer seus pais e avós.
Só mais uma coisa quero mencionar, que aconteceu nestes dias em que não escrevi aqui:
Para vender um carro que temos desde 1999, meu marido José e eu procuramos o Certificado de Transferência, e não encontramos. Já nos mudamos de casa - e de cidade - nesse entretempo, e o papel desapareceu. Sou normalmente muito organizada com nossos papéis, tenho um arquivo pessoal bem estruturado e sempre atualizado, mantenho registros de coisas antigas que considero importantes, tenho Notas Fiscais de produtos comprados há muitos e muitos anos, se o item ainda existe, a N.Fiscal está guardada. Assim, ter sumido um documento importante foi um baque para nós, além de significar um transtorno considerável, pois nos impossibilitaria a venda do auto no momento, demandaria ações junto ao Detran de São Paulo, demoradas e dispendiosas. Então, resolvi fazer uma varredura completa em todos os papéis da casa, ordenadamente, de cabo a rabo, sem deixar nada para trás, examinando mesmo os lugares mais improváveis.
Tudo isto para contar que, nessa busca, mexi em coisas que eram da minha mãe, vi lá uma porção de recordações que já tinha visto nalgum momento da minha vida, livros de poesias que ela escreveu na adolescência, tudo manuscrito, poesias das irmãs, cópias que foram tiradas por elas da partitura e letra do Hino a São Paulo, escrito pelo Vô Gino, todas as letras das músicas que minha mãe compôs, desde 1973, para as crianças da Família cantarem e tocarem no Natal, uma cadernetinha de endereços de bolso manuscrita por meu pai, com sua letra tão característica, enfim, tesouros que estão guardados junto com minhas fotos, pois ficaram em meu poder depois que mamãe morreu, já que ela morava na minha casa e tudo dela estava lá.
Só que, no meio de todas essas coisas que eu já conhecia, achei algo que não me lembro de jamais ter visto antes. Cinco meias folhas de papel tipo sulfite, onde foram copiados, xerocados, registros manuscritos, com letra bordada como em convites e diplomas antigos, em italiano, de pessoas residentes na localidade, Comune di Pontedera. Aparentemente, são registros dos habitantes, chamado Indice Mobile del Registro di Popolazione, com os nomes dos membros da Família Pochini.
Já é mais de meia-noite, estou com sono, na próxima postagem vou contar o que decifrei desses escritos e registros.
Ainda uma "coisinha" mais a deixar registrada, aqui neste espaço da minha Família. Há dois
dias, em 12.03.2009, nasceu na Pro-Matre na Capital de São Paulo, o Gabriel, com quase quatro quilos; filho de Luciana Prado Chasles e Daniel Gabbay, primeiro neto de minha irmã caçula, Lucia Edy Prado e seu ex-marido, Danilo Chasles. Mais um bisneto de Aída Pochini Prado e Domingos Prado, e mais um tataraneto de Gertrudes Ramalho Pochini e Gino Pochini.
Estamos todos muito felizes. A vida não para, a família se perpetua.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
FALANDO DA LEONILDA
Como, até hoje, não recebi nenhuma resposta da Prefeitura de Araraquara para o meu e-mail, resolvi telefonar para lá. Expliquei o que pretendia e me deram um número para falar com o Expediente da Câmara - um Sr. Cavalcante, que é quem cuida das informações centralizadas dos homenageados com seu nome em ruas da Cidade. Não tendo encontrado a pessoa na sua sala da primeira vez que liguei, só vou ter chance de tentar de novo na próxima semana.
Enquanto isso, vou aqui puxando pela minha memória para me lembrar das filhas mais velhas da Vó Tudinha e Vô Gino, começando pela primogênita, Leonilda.
Minha mãe contava que ela era muito determinada em relação ao que queria, não se deixava influenciar por ideias alheias nem por instruções e ordens recebidas, se não fosse de seu interesse obedecer. Quando adolescente, trabalhava em uma fábrica em Araraquara, e deveria trazer seu ordenado intacto para a mãe , mas sempre comprava, antes de chegar em casa, um pó-de-arroz perfumado - ou um outro item semelhante, considerado supérfluo (mas não para ela), mesmo que, com isso, levasse uma tremenda bronca da mãe, e até uns tapas. Não adiantava, no mes seguinte faria igual.
Era uma moça bonita, elegante, com um porte de rainha que ela não perdeu até a velhice.
Foi a primeira mulher que eu vi exercitar-se fisicamente, fazia ginásticas regularmente para se manter em forma, desde aquela época tinha cuidados e preocupações não só com a aparência física mas especialmente com a saúde; lembro-me de vê-la deitada em uma prancha com a cabeça em nível mais baixo do que as pernas, para favorecer a circulação sanguínea e evitar varizes. Sempre dava sugestões e mostrava formas de a gente cuidar do corpo, da pele, dos cabelos, com receitas caseiras de sabões para esfoliação da pele, ingredientes naturais para fazer máscaras de beleza para o rosto, evitando acne, controlando a oleosidade e deixando a pele viçosa e sem manchas, choque térmico com água fria no final do banho para enrigecer os seios, formas de escovação dos dentes e produtos para mantê-los mais brancos, líquidos para higienizar e desodorizar pés e axilas, e muitas coisas desse tipo, era a consultora de beleza da moçada, da sobrinhada toda.
Tinha uma forma sempre especialmente carinhosa de chamar todos pelo diminutivo dos nomes, era Marieleninha, Suzaninha, Beatrizinha prá lá e prá cá, e vindo dela soava com naturalidade, era sempre assim. Mas isso não quer dizer que ela fosse meiga e doce; não. Era firme e forte, formal em sua maneira de ser, dura quando necessário.
Trabalhou fora até se aposentar, trabalhava em S. Paulo no escritório de um advogado, acho, era para nós o símbolo da profissionalização, da pontualidade, da correção de atitudes em relação ao trabalho, apreciadíssima por seus superiores. Numa época em que mulheres eram tão somente mães e donas-de-casa, ela, Tia Nilda, era diferente, era a mulher-profissional.
Não sei como era sua vida no início de seu casamento, só me lembro de nossa convivência quando ela já morava em São Paulo, já tinha filhos moços.
Casou-se com um rapaz chamado Firmo , de quem não me lembro, só vi fotos - e poucas; dizem que era um homem bonito. Omito aqui o sobrenome para não deixar em excessiva exposição na Internet. Profissional de Cartório, como meu pai. Tiveram seis filhos, dois homens e quatro mulheres. Parece que viveram muito felizes, eram apaixonados e companheiros, mas tiveram sempre muitas dificuldades financeiras, desfrutaram de poucas fases de "vacas gordas".
Recordo-me de uma ocasião, na minha infância, em que havia uma consternação geral na família por algo muito sério que teria acontecido, ninguém falava a respeito, as crianças ouviam fragmentos de conversas, palavras perdidas. Depois soube que Tio Firmo estava afastado do trabalho, em lugar ignorado por quase todos, pois havia se desentendido e atirado em um colega de Cartório, matando-o. Até hoje não sei ao certo o que teria ocorrido, minha mãe me disse uma vez que o Firmo era um homem muito correto, e que perdeu a cabeça porque foi propositadamente prejudicado em sua vida profissional - e, consequentemente, lesado financeiramente - por esse homem seu colega de trabalho. Mas não sei mais detalhes, esse virou assunto-tabu, ninguém tocava.
Logo depois, uns meses, acredito, Tio Firmo teve um enfarto ou um derrame cerebral, estava com sua filha mais velha, Lygia, que o acudiu e até fez uma sangria em seu braço; mas ele não resistiu e morreu nos braços da filha. Com sua morte, mais e mais ficou proibitivo mencionar-se a desavença e o assassinato. É desses assuntos de família sobre o qual ninguém quer falar, ninguém quer lembrar.
P.S.: Meu irmão mais velho e meu padrinho, Sérgio Emílio, que mora há alguns anos no Guarujá, veio passar conosco aqui em São Vicente umas horas do domingo, pois José, como todos os anos, vai fazer sua Declaração de Imposto de Renda. Mesmo já tendo passado dos 80 anos, Dindinho (como eu o chamo, de brincadeira) é absolutamente lúcido, tem um constante bom-humor (como o que tinha minha mãe), está sempre pronto a fazer brincadeiras com todos, é uma ótima companhia.
Perguntei a ele sobre o episódio do Tio Firmo que relatei acima, e ele me corrigiu num ponto, não foi com um revólver que foi morta a pessoa, mas sim com uma faca. Sérgio também me contou um pouco sobre a personalidade do nosso tio, disse que era um homem aparentemente calmo e tranquilo, mas muito duro e intransigente, quando se tratava de justiça, do que era para ele o certo. Disse que ele não relutava em castigar seus próprios filhos se soubesse que tinham cometido algo ilícito ou injusto com alguém; gostava de tudo muito "às direitas".
E que esse triste acontecimento da vida dele deveu-se a ter sido injustiçado por seu chefe no Cartório, que preferiu ficar bem com um cliente rico ao invés de apoiar seu funcionário em uma reivindicação que ele sabia ser verdadeira; e, para piorar ainda mais a situação, quando Tio Firmo insistiu para que ele reconsiderasse sua atitude, ele sumariamente o despediu. Naquela época, não havia nenhum tipo de seguridade social, de garantias trabalhistas, um Escrevente de Cartório era como um trabalhador autônomo, que sairia sem nada. Sendo um homem já maduro, com uma grande família sob sua responsabilidade, seria muitíssimo difícil encontrar outro emprego, ainda mais se se considerasse que seria sem referências. E foi esse aglomerado de situações desesperadoras que o levou àquele desatino.
Só volto a me lembrar de contato com a Tia Nilda já na minha adolescência; morando em São Paulo, eu trabalhei em diversas empresas no centro da cidade e, volta e meia, ela convidava para ir almoçar com ela; naquele tempo, com o trânsito livre, tínhamos duas horas de almoço e normalmente íamos pra casa; quando recebia seu convite, ia para a casa dela - que era também no centro, mais pros lados da Estação da Luz, e sempre havia uma comidinha caprichada esperando, era muito carinhosa com os filhos da Edy, interessava-se pela saúde da gente, uma mãezona dos sobrinhos.
Tia Nilda e Tia Lina compraram apartamentos em prédios pegados, ficaram morando muito próximas as duas irmãs mais velhas.
Foi Tia Nilda que ingressou no Coral do MOP - Movimento pró Idosos, e levou minha mãe com ela; uma vez por semana as duas iam ensaiar, era um local proximo de Perdizes, passavam a tarde nessa atividade. E adoravam! Algumas vezes se apresentaram com o Coral em eventos pela cidade, lembro que não havia uniforme, mas todas tinham que estar de blusa cor-de-rosa na apresentação. Foi uma coisa boa na terceira idade das irmãs, que cantavam - o que era muito prazeroso para elas - e tinham motivo para se verem toda semana, mesmo nesta São Paulo tão grande, e minha mãe morava longe, na zona sul.
Desde a morte da Vó Tudinha, todos os anos, no aniversário da morte dela - 29 de junho - Tia Nilda mandava rezar uma missa numa Igreja do centro da Cidade, e a família toda comparecia, era um acontecimento, só se faltava mesmo por motivo de força maior, ia toda a moçada, ninguém cogitava se esquivar do compromisso. E, após a missa, as três irmãs iam pra casa da Tia Nilda e passavam o dia juntas, em memória da mãe. Esse ritual anual durou muitos anos, e só terminou quando Tia Nilda já não estava bem de saúde, não tinha mais lucidez para tomar as providências todas sozinha. Daí, ela, que morava com a filha mais nova, Lúcia, solteira, foi levada para morar na Fazenda da filha mais velha, Lygia, em Caçapava, SP, porque sua condição física requeria cuidados contínuos e Lúcia trabalhava fora, tinha seus compromissos, não era a pessoa mais indicada para cuidar dela. Ela foi ficando esquecida de tudo, com mal de Alzeimer, no final não reconhecia nem as filhas. Contam que, certa vez, vieram com Tia Nilda a São Paulo para pegar coisas em sua casa antiga, ela entrou na sala do apartamento, olhou para o quadro na parede com a foto de seu marido Firmo e teria dito:
- que homem bonito, parece que eu conheço esse homem.........
ao que sua filha respondeu:
- bem, mamãe, é bom mesmo que a senhora o conheça porque vocês tiveram seis filhos juntos!
Nos últimos meses de sua vida, minha mãe foi para a fazenda ficar uns tempos com a irmã, ajudando a cuidar dela e especialmente fazendo companhia. Minha mãe contava que ela parecia feliz quando mamãe cantava pra ela e dizia:
- preste atenção, Nilda, aprenda a música que vamos nos apresentar com o Coral do MOP.
Minha mãe dizia que parecia ver um lampejo de lembrança em seus olhos, tão distanciados da realidade pela doença.
Tia Nilda já estava com mais de 90 (acho que 92 ou 93 ) anos, quando deu seu último suspiro e se foi deste mundo.
Esta é uma foto da querida Tia Nilda
em frente à Igreja da Praça do Patriarca,
no centro da cidade de São Paulo,
ao final da missa pelo aniversário de
morte da Vovó Tudinha, em 1974.
Enquanto isso, vou aqui puxando pela minha memória para me lembrar das filhas mais velhas da Vó Tudinha e Vô Gino, começando pela primogênita, Leonilda.
Minha mãe contava que ela era muito determinada em relação ao que queria, não se deixava influenciar por ideias alheias nem por instruções e ordens recebidas, se não fosse de seu interesse obedecer. Quando adolescente, trabalhava em uma fábrica em Araraquara, e deveria trazer seu ordenado intacto para a mãe , mas sempre comprava, antes de chegar em casa, um pó-de-arroz perfumado - ou um outro item semelhante, considerado supérfluo (mas não para ela), mesmo que, com isso, levasse uma tremenda bronca da mãe, e até uns tapas. Não adiantava, no mes seguinte faria igual.
Era uma moça bonita, elegante, com um porte de rainha que ela não perdeu até a velhice.
Foi a primeira mulher que eu vi exercitar-se fisicamente, fazia ginásticas regularmente para se manter em forma, desde aquela época tinha cuidados e preocupações não só com a aparência física mas especialmente com a saúde; lembro-me de vê-la deitada em uma prancha com a cabeça em nível mais baixo do que as pernas, para favorecer a circulação sanguínea e evitar varizes. Sempre dava sugestões e mostrava formas de a gente cuidar do corpo, da pele, dos cabelos, com receitas caseiras de sabões para esfoliação da pele, ingredientes naturais para fazer máscaras de beleza para o rosto, evitando acne, controlando a oleosidade e deixando a pele viçosa e sem manchas, choque térmico com água fria no final do banho para enrigecer os seios, formas de escovação dos dentes e produtos para mantê-los mais brancos, líquidos para higienizar e desodorizar pés e axilas, e muitas coisas desse tipo, era a consultora de beleza da moçada, da sobrinhada toda.
Tinha uma forma sempre especialmente carinhosa de chamar todos pelo diminutivo dos nomes, era Marieleninha, Suzaninha, Beatrizinha prá lá e prá cá, e vindo dela soava com naturalidade, era sempre assim. Mas isso não quer dizer que ela fosse meiga e doce; não. Era firme e forte, formal em sua maneira de ser, dura quando necessário.
Trabalhou fora até se aposentar, trabalhava em S. Paulo no escritório de um advogado, acho, era para nós o símbolo da profissionalização, da pontualidade, da correção de atitudes em relação ao trabalho, apreciadíssima por seus superiores. Numa época em que mulheres eram tão somente mães e donas-de-casa, ela, Tia Nilda, era diferente, era a mulher-profissional.
Não sei como era sua vida no início de seu casamento, só me lembro de nossa convivência quando ela já morava em São Paulo, já tinha filhos moços.
Casou-se com um rapaz chamado Firmo , de quem não me lembro, só vi fotos - e poucas; dizem que era um homem bonito. Omito aqui o sobrenome para não deixar em excessiva exposição na Internet. Profissional de Cartório, como meu pai. Tiveram seis filhos, dois homens e quatro mulheres. Parece que viveram muito felizes, eram apaixonados e companheiros, mas tiveram sempre muitas dificuldades financeiras, desfrutaram de poucas fases de "vacas gordas".
Recordo-me de uma ocasião, na minha infância, em que havia uma consternação geral na família por algo muito sério que teria acontecido, ninguém falava a respeito, as crianças ouviam fragmentos de conversas, palavras perdidas. Depois soube que Tio Firmo estava afastado do trabalho, em lugar ignorado por quase todos, pois havia se desentendido e atirado em um colega de Cartório, matando-o. Até hoje não sei ao certo o que teria ocorrido, minha mãe me disse uma vez que o Firmo era um homem muito correto, e que perdeu a cabeça porque foi propositadamente prejudicado em sua vida profissional - e, consequentemente, lesado financeiramente - por esse homem seu colega de trabalho. Mas não sei mais detalhes, esse virou assunto-tabu, ninguém tocava.
Logo depois, uns meses, acredito, Tio Firmo teve um enfarto ou um derrame cerebral, estava com sua filha mais velha, Lygia, que o acudiu e até fez uma sangria em seu braço; mas ele não resistiu e morreu nos braços da filha. Com sua morte, mais e mais ficou proibitivo mencionar-se a desavença e o assassinato. É desses assuntos de família sobre o qual ninguém quer falar, ninguém quer lembrar.
P.S.: Meu irmão mais velho e meu padrinho, Sérgio Emílio, que mora há alguns anos no Guarujá, veio passar conosco aqui em São Vicente umas horas do domingo, pois José, como todos os anos, vai fazer sua Declaração de Imposto de Renda. Mesmo já tendo passado dos 80 anos, Dindinho (como eu o chamo, de brincadeira) é absolutamente lúcido, tem um constante bom-humor (como o que tinha minha mãe), está sempre pronto a fazer brincadeiras com todos, é uma ótima companhia.
Perguntei a ele sobre o episódio do Tio Firmo que relatei acima, e ele me corrigiu num ponto, não foi com um revólver que foi morta a pessoa, mas sim com uma faca. Sérgio também me contou um pouco sobre a personalidade do nosso tio, disse que era um homem aparentemente calmo e tranquilo, mas muito duro e intransigente, quando se tratava de justiça, do que era para ele o certo. Disse que ele não relutava em castigar seus próprios filhos se soubesse que tinham cometido algo ilícito ou injusto com alguém; gostava de tudo muito "às direitas".
E que esse triste acontecimento da vida dele deveu-se a ter sido injustiçado por seu chefe no Cartório, que preferiu ficar bem com um cliente rico ao invés de apoiar seu funcionário em uma reivindicação que ele sabia ser verdadeira; e, para piorar ainda mais a situação, quando Tio Firmo insistiu para que ele reconsiderasse sua atitude, ele sumariamente o despediu. Naquela época, não havia nenhum tipo de seguridade social, de garantias trabalhistas, um Escrevente de Cartório era como um trabalhador autônomo, que sairia sem nada. Sendo um homem já maduro, com uma grande família sob sua responsabilidade, seria muitíssimo difícil encontrar outro emprego, ainda mais se se considerasse que seria sem referências. E foi esse aglomerado de situações desesperadoras que o levou àquele desatino.
Só volto a me lembrar de contato com a Tia Nilda já na minha adolescência; morando em São Paulo, eu trabalhei em diversas empresas no centro da cidade e, volta e meia, ela convidava para ir almoçar com ela; naquele tempo, com o trânsito livre, tínhamos duas horas de almoço e normalmente íamos pra casa; quando recebia seu convite, ia para a casa dela - que era também no centro, mais pros lados da Estação da Luz, e sempre havia uma comidinha caprichada esperando, era muito carinhosa com os filhos da Edy, interessava-se pela saúde da gente, uma mãezona dos sobrinhos.
Tia Nilda e Tia Lina compraram apartamentos em prédios pegados, ficaram morando muito próximas as duas irmãs mais velhas.
Foi Tia Nilda que ingressou no Coral do MOP - Movimento pró Idosos, e levou minha mãe com ela; uma vez por semana as duas iam ensaiar, era um local proximo de Perdizes, passavam a tarde nessa atividade. E adoravam! Algumas vezes se apresentaram com o Coral em eventos pela cidade, lembro que não havia uniforme, mas todas tinham que estar de blusa cor-de-rosa na apresentação. Foi uma coisa boa na terceira idade das irmãs, que cantavam - o que era muito prazeroso para elas - e tinham motivo para se verem toda semana, mesmo nesta São Paulo tão grande, e minha mãe morava longe, na zona sul.
Desde a morte da Vó Tudinha, todos os anos, no aniversário da morte dela - 29 de junho - Tia Nilda mandava rezar uma missa numa Igreja do centro da Cidade, e a família toda comparecia, era um acontecimento, só se faltava mesmo por motivo de força maior, ia toda a moçada, ninguém cogitava se esquivar do compromisso. E, após a missa, as três irmãs iam pra casa da Tia Nilda e passavam o dia juntas, em memória da mãe. Esse ritual anual durou muitos anos, e só terminou quando Tia Nilda já não estava bem de saúde, não tinha mais lucidez para tomar as providências todas sozinha. Daí, ela, que morava com a filha mais nova, Lúcia, solteira, foi levada para morar na Fazenda da filha mais velha, Lygia, em Caçapava, SP, porque sua condição física requeria cuidados contínuos e Lúcia trabalhava fora, tinha seus compromissos, não era a pessoa mais indicada para cuidar dela. Ela foi ficando esquecida de tudo, com mal de Alzeimer, no final não reconhecia nem as filhas. Contam que, certa vez, vieram com Tia Nilda a São Paulo para pegar coisas em sua casa antiga, ela entrou na sala do apartamento, olhou para o quadro na parede com a foto de seu marido Firmo e teria dito:
- que homem bonito, parece que eu conheço esse homem.........
ao que sua filha respondeu:
- bem, mamãe, é bom mesmo que a senhora o conheça porque vocês tiveram seis filhos juntos!
Nos últimos meses de sua vida, minha mãe foi para a fazenda ficar uns tempos com a irmã, ajudando a cuidar dela e especialmente fazendo companhia. Minha mãe contava que ela parecia feliz quando mamãe cantava pra ela e dizia:
- preste atenção, Nilda, aprenda a música que vamos nos apresentar com o Coral do MOP.
Minha mãe dizia que parecia ver um lampejo de lembrança em seus olhos, tão distanciados da realidade pela doença.
Tia Nilda já estava com mais de 90 (acho que 92 ou 93 ) anos, quando deu seu último suspiro e se foi deste mundo.
Esta é uma foto da querida Tia Nilda
em frente à Igreja da Praça do Patriarca,
no centro da cidade de São Paulo,
ao final da missa pelo aniversário de
morte da Vovó Tudinha, em 1974.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
AINDA O LADO DA MINHA MÃE
Estive pensando todos estes dias em pesquisar antes de escrever algo sobre meu pai e seus ascendentes, mas não sei bem onde pesquisar, nem com quem, daí fico temerosa de atrasar todo o processo deste relato, se seguir nessa direção.
Então resolvi: vou contar o que eu sei e eu lembro, como se estivesse contanto para os meus filhos, sem compromisso com a verdade histórica. Se, mais à frente, descobrir algo diferente, faço a correção; se alguém ler e me corrigir, maravilha, a informação terá vindo até mim (poupando-me de ir buscá-la).
Mas, ainda não vou partir para o lado do meu pai, creio que ainda tenho que permanecer nas coisas de minha mãe mais um pouco.
Pesquisando no Google para ver o que a filha do meu primo Washington, Lina Maria, teria achado sobre nosso antepassado (meu avô e bisavô dela) Gino Pochini, descobri que em Araraquara - SP há uma rua com o nome dele. Então preciso me certificar se é mesmo o nosso GPochini o homenageado com seu nome numa rua daquela cidade. Escrevi um e-mail para a Prefeitura de Araraquara explicando meu interesse nessa questão, estou aguardando ansiosa para ver se me respondem.
Transcrevo abaixo a carta que mandei:
Prezados Senhores:
Através de pesquisa no Google, vi que existe uma rua em Araraquara, no Parque Iguatemi, com CEP 14808-257, chamada Rua Gino Pochini. Gostaria de saber de V.Sas. se há nessa Prefeitura algum órgão que registre a história das pessoas homenageadas com seu nome em logradouros públicos da cidade
O motivo de meu interesse é que meu avô, que se chamava Gino Pochini, foi um imigrante italiano que viveu em Araraquara quando se casou com minha avó, Gertrudes, que era da Familia dos Ramalho de Araraquara. Isto aconteceu no final dos anos 1890, início de 1900. Minha mãe, Aída Ramalho Pochini - depois Prado pelo casamento - nasceu em Campinas em 1908, e sei que foi menina morar em Araraquara. Como minha família tem poucos dados sobre esse nosso avô, gostaria de saber se há alguma informação sobre o Gino Pochini que é homenageado com seu nome nessa rua do Parque Iguatemi, pois apreciaríamos saber se se trata do nosso Gino Pochini. Sabemos que ele era Compositor e Maestro, foi Professor e teve uma Escola.
Gostaria muitíssimo de receber uma resposta de V.Sas. Se for necessário que eu me dirija a uma Secretaria específica, por favor me informem. Acho muito importante para o conhecimento de meus filhos e netos que não se perca o vínculo com o passado da família.
Antecipadamente agradeço a atenção e o interesse de V.Sas.
Atenciosamente,
Sílvia Maria Prado Bolognani
Para dar vida aos personagens mais contemporâneos que são, como eu, fruto do que Gertrudes Ramalho Pochini e Gino Pochini construiram com seu casamento, tenho que mencionar as duas irmãs mais velhas da minha mãe, seus destinos, seus casamentos, seus filhos, o caminho que seguiram para chegar à atual geração, ou, pelo menos, à geração equivalente à minha.
Mais uma vez reforço que não estou recorrendo a fontes outras que não minha própria memória e conhecimentos pessoais. Provavelmente vou cometer erros, vou omitir fatos ou vou fazer relatos equivocados de fatos, mas será só o que me dizem minhas lembranças, como as tenho hoje, graças a Deus ainda de posse de minha lucidez (se não total, pelo menos a lucidez que sempre tive, não menos).
Vamos lá, então, comecemos.
Então resolvi: vou contar o que eu sei e eu lembro, como se estivesse contanto para os meus filhos, sem compromisso com a verdade histórica. Se, mais à frente, descobrir algo diferente, faço a correção; se alguém ler e me corrigir, maravilha, a informação terá vindo até mim (poupando-me de ir buscá-la).
Mas, ainda não vou partir para o lado do meu pai, creio que ainda tenho que permanecer nas coisas de minha mãe mais um pouco.
Pesquisando no Google para ver o que a filha do meu primo Washington, Lina Maria, teria achado sobre nosso antepassado (meu avô e bisavô dela) Gino Pochini, descobri que em Araraquara - SP há uma rua com o nome dele. Então preciso me certificar se é mesmo o nosso GPochini o homenageado com seu nome numa rua daquela cidade. Escrevi um e-mail para a Prefeitura de Araraquara explicando meu interesse nessa questão, estou aguardando ansiosa para ver se me respondem.
Transcrevo abaixo a carta que mandei:
Prezados Senhores:
Através de pesquisa no Google, vi que existe uma rua em Araraquara, no Parque Iguatemi, com CEP 14808-257, chamada Rua Gino Pochini. Gostaria de saber de V.Sas. se há nessa Prefeitura algum órgão que registre a história das pessoas homenageadas com seu nome em logradouros públicos da cidade
O motivo de meu interesse é que meu avô, que se chamava Gino Pochini, foi um imigrante italiano que viveu em Araraquara quando se casou com minha avó, Gertrudes, que era da Familia dos Ramalho de Araraquara. Isto aconteceu no final dos anos 1890, início de 1900. Minha mãe, Aída Ramalho Pochini - depois Prado pelo casamento - nasceu em Campinas em 1908, e sei que foi menina morar em Araraquara. Como minha família tem poucos dados sobre esse nosso avô, gostaria de saber se há alguma informação sobre o Gino Pochini que é homenageado com seu nome nessa rua do Parque Iguatemi, pois apreciaríamos saber se se trata do nosso Gino Pochini. Sabemos que ele era Compositor e Maestro, foi Professor e teve uma Escola.
Gostaria muitíssimo de receber uma resposta de V.Sas. Se for necessário que eu me dirija a uma Secretaria específica, por favor me informem. Acho muito importante para o conhecimento de meus filhos e netos que não se perca o vínculo com o passado da família.
Antecipadamente agradeço a atenção e o interesse de V.Sas.
Atenciosamente,
Sílvia Maria Prado Bolognani
Para dar vida aos personagens mais contemporâneos que são, como eu, fruto do que Gertrudes Ramalho Pochini e Gino Pochini construiram com seu casamento, tenho que mencionar as duas irmãs mais velhas da minha mãe, seus destinos, seus casamentos, seus filhos, o caminho que seguiram para chegar à atual geração, ou, pelo menos, à geração equivalente à minha.
Mais uma vez reforço que não estou recorrendo a fontes outras que não minha própria memória e conhecimentos pessoais. Provavelmente vou cometer erros, vou omitir fatos ou vou fazer relatos equivocados de fatos, mas será só o que me dizem minhas lembranças, como as tenho hoje, graças a Deus ainda de posse de minha lucidez (se não total, pelo menos a lucidez que sempre tive, não menos).
Vamos lá, então, comecemos.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
SOBRE PERSONAGENS MENCIONADOS - parte II
Era o ano de 1969. Eu tinha 25 anos e estava com casamento marcado, com José Bolognani, para abril de 1970. Trabalhávamos na R. João Adolfo, no centro de S.Paulo, eu como Secretária e José na parte Financeira, nas Empresas Bruce Payne e Associados, Executives - Seleção de Pessoal de alto nível e Prospect - Pessoal de nível médio, uma organização pequena, com poucos funcionários, presidida por Dr. Jorge Arana, um argentino que foi super marcante em nossas vidas. Pois bem, uma empresinha como milhares de outras em S.Paulo, no 11. and. de um prédio antigo, sem renome, sem fama. Eles estavam precisando de uma nova secretária-junior, até porque logo eu sairia de férias para casar e seria necessário alguém para me substituir.
Numa noite, após o expediente, cheguei em casa, no Cambuci, onde morava com minha mãe e minha irmã caçula, a Lucinha, e disse: hoje contratamos uma Ramalho para trabalhar concosco, uma moça bonita, grandona. Minha mãe disse:
- Vai ver que é nossa parente! eu ri, tão pouco provável numa imensidão de cidade como a Capital paulista, e completei:
- É Sonia Ramalho, Sonia Mercadante Ramalho, começa amanhã a trabalhar.
Minha mãe imediatamente reagiu:
- Mercadante é a Lygia, mulher do Oscar Ramalho e, deixe-me lembrar, eles tem uma filha Sonia. Seria possível uma coincidência dessas? No dia seguinte eu iria confirmar.
Quando ela chegou ao escritório, logo cedo, perguntei à queimarroupa:
- E aí, como estão Lygia e Oscar, tudo bem com eles? ela me olhou com ar assustado e:
- Como você sabe o nome dos meus pais?
Bem, foi um tal de falar sobre família, coincidências, parentes, conhecidos comuns...... Ela se tornou uma boa amiga, embora não tenha ficado muito tempo na Organização, esteve em nosso casamento, visitou-nos com o marido Marcelo em nosso apartamentinho na Av. Santo Amaro, minha mãe reatou o contato com o primo Oscar e sua mulher, lembro-me até o jogo de copos altos, num lindo tom de verde, esfumaçado, que ganhamos de presente de casamento dela. Anos depois perdemos o contato novamente, soube que ela teve, se não me engano, 4 filhos, depois separou-se do marido.
Oscar era o filho mais formal do Tio Flamínio, todo empertigado, falava difícil e rebuscadamente, lembro-me hoje da Lygia com a cara da Da. Ruth Cardoso, do Fernando Henrique - Presidente.
E foi assim que mais um sobrinho de minha vó Tudinha cruzou meu caminho, como um sinal de que os familiares se espalham sim, seguem caminhos diversos, mas estão sempre ao redor, em estradinhas paralelas, ou em pequenas transversais, quando menos se espera, dá-se de frente com um antigo parente.
Tanto isso é verdade que, surpreendentemente, encontrei um comentário de Lina Rodrigues sobre meu blog , ela é filha do meu primo Washington, filho caçula da Isolina, irmã imediatamente mais velha da minha mãe. Essa fantástica Internet! onde um escritozinho despretensioso, menor, de uma anônima moradora do Litoral Paulista, sem nenhuma projeção ou importância literária, pouco tempo depois de publicado na Rede Mundial já é encontrado por alguém da família.
Vou entrar em contato com os pais dela, por telefone, para ver se talvez eles possam ter informações que me ajudem nesta tarefa de resgatar alguns fatos de meus antepassados.
A partir daqui, vou tentar iniciar o relato do pouco que sei sobre meu pai e seus ancestrais.
Aqui também é uma história complexa, com menos dados concretos ainda do que tive sobre a ascendência de minha mãe.
Nem sei muito bem como começar, vou tentar organizar minhas ideias depois retomo meus textos aqui.
Até breve!
Sílvia
Numa noite, após o expediente, cheguei em casa, no Cambuci, onde morava com minha mãe e minha irmã caçula, a Lucinha, e disse: hoje contratamos uma Ramalho para trabalhar concosco, uma moça bonita, grandona. Minha mãe disse:
- Vai ver que é nossa parente! eu ri, tão pouco provável numa imensidão de cidade como a Capital paulista, e completei:
- É Sonia Ramalho, Sonia Mercadante Ramalho, começa amanhã a trabalhar.
Minha mãe imediatamente reagiu:
- Mercadante é a Lygia, mulher do Oscar Ramalho e, deixe-me lembrar, eles tem uma filha Sonia. Seria possível uma coincidência dessas? No dia seguinte eu iria confirmar.
Quando ela chegou ao escritório, logo cedo, perguntei à queimarroupa:
- E aí, como estão Lygia e Oscar, tudo bem com eles? ela me olhou com ar assustado e:
- Como você sabe o nome dos meus pais?
Bem, foi um tal de falar sobre família, coincidências, parentes, conhecidos comuns...... Ela se tornou uma boa amiga, embora não tenha ficado muito tempo na Organização, esteve em nosso casamento, visitou-nos com o marido Marcelo em nosso apartamentinho na Av. Santo Amaro, minha mãe reatou o contato com o primo Oscar e sua mulher, lembro-me até o jogo de copos altos, num lindo tom de verde, esfumaçado, que ganhamos de presente de casamento dela. Anos depois perdemos o contato novamente, soube que ela teve, se não me engano, 4 filhos, depois separou-se do marido.
Oscar era o filho mais formal do Tio Flamínio, todo empertigado, falava difícil e rebuscadamente, lembro-me hoje da Lygia com a cara da Da. Ruth Cardoso, do Fernando Henrique - Presidente.
E foi assim que mais um sobrinho de minha vó Tudinha cruzou meu caminho, como um sinal de que os familiares se espalham sim, seguem caminhos diversos, mas estão sempre ao redor, em estradinhas paralelas, ou em pequenas transversais, quando menos se espera, dá-se de frente com um antigo parente.
Tanto isso é verdade que, surpreendentemente, encontrei um comentário de Lina Rodrigues sobre meu blog , ela é filha do meu primo Washington, filho caçula da Isolina, irmã imediatamente mais velha da minha mãe. Essa fantástica Internet! onde um escritozinho despretensioso, menor, de uma anônima moradora do Litoral Paulista, sem nenhuma projeção ou importância literária, pouco tempo depois de publicado na Rede Mundial já é encontrado por alguém da família.
Vou entrar em contato com os pais dela, por telefone, para ver se talvez eles possam ter informações que me ajudem nesta tarefa de resgatar alguns fatos de meus antepassados.
A partir daqui, vou tentar iniciar o relato do pouco que sei sobre meu pai e seus ancestrais.
Aqui também é uma história complexa, com menos dados concretos ainda do que tive sobre a ascendência de minha mãe.
Nem sei muito bem como começar, vou tentar organizar minhas ideias depois retomo meus textos aqui.
Até breve!
Sílvia
domingo, 11 de janeiro de 2009
SOBRE PERSONAGENS MENCIONADOS
P.S.: (Não sei se é correto começar um texto com um P.S. mas, como vou me referir ao post anterior, acho que tudo bem......)
Suzy, minha irmã que está passando uns dias das férias de 2009 aqui em Sanvic conosco, disse-me que, pelo que ela se lembra, o Nhonhô, irmão da Vó Tudinha, se chamava Ermínio ou Hermínio. E assim vamos costurando alguns dados, alguns fatos, pontinho por pontinho, quem sabe chegaremos a, pelo menos, uma colcha de retalhos do passado da família.
Sobre a Maria do Carmo, filha do Tio Flamínio, em cuja casa ficamos por uns meses em Araraquara: era uma mulher cheia de corpo, cabelos muito curtos, corte que, naquela época se chamava "a la homem". Olhos esverdeados, tinha um tique nervoso que a fazia revirar os olhos, que ficavam uns instantes tremelicando, dentes meio tortinhos, não era uma moça bonita, já bem passada dos trinta e solteira, já solteirona poder-se-ia dizer. Nunca a vi de saia ou vestido, sempre de calça comprida, sapatos baixos, fumando e, pasmem, para o ano de 1952 - 53 um fato bem incomum, andava de moto! Ela era divertida, tinha um jeitinho meio chiado de falar, dava muita risada, combinava muito bem com meu irmão Luciano, de quem ficou amicíssima. Ouvia-se um tititi sobre ela e, só mais tarde, me dei conta do que se tratava.
Ela era, diziam, o que se chamava naquela época de "mulher macho". Tinha umas amigas com quem sempre estava, tudo absolutamente inocente e discreto.
Ela foi, essa prima em segundo grau, legalzona, boa-praça, meu primeiro contato, a primeira vez que vi e tomei conhecimento de uma pessoa homossexual. Chega até a ser meio triste - acredito - para seus pais: a única filha, no meio de vários homens, de Tio Flamínio e Tia Mariquinha, não era mulher.
Acho que foi na década de 80 ou início dos anos 90 que ela morreu, soubemos que teve um problema cardíaco, fez cateterismo e, logo depois, seu coração não resistiu.
Não sei nada sobre seus sentimentos, mas só vi que ela, ao menos publicamente, viveu e morreu sozinha. Daí não me estranha que um coração não resista..........
Outro filho do Tio Flamínio, Onofre, chamado Fifi - uma figura - morou uns tempos em nossa casa em São Paulo, quando morávamos na Vila Mariana, na Av. Cons. Rodrigues Alves, onde meu pai viveu seus últimos dias. Creio que por volta de 1956 - 1957. Ele era casado com uma Iva, carioca, moravam no Rio de Janeiro, tinham um filho. Não sei por que circunstâncias a familia ficava lá no Rio e ele em nossa casa em São Paulo, talvez tratando de algum negócio ou emprego. Iva era uma mulher alta, morena, magra, feia (pelo menos eu a via assim, na época), com cabelo de birote. Ele era também bem alto e magro, careca, narigudo, feio, moreno queimado de sol, muito engraçado, cheio de "tiradinhas" bem-humoradas. Diziam que ele tinha sido apaixonado por minha mãe, na meninice de ambos.
Ele sempre se esquecia de algo quando saia, daí voltava para pegar, saia, lembrava-se de algo mais, voltava de novo. Era tão constante isso que virou uma expressão na família: sempre que alguém volta depois de sair para pegar algo esquecido, dizemos: Que foi que o Fifi esqueceu (ponto de interrogação).
Nota: sumiu o ponto de interrogação do meu lap-top, que foi consertado e agora o que deu pau mesmo foi o computador do Jose, temos só este velhinho, do tempo que Silvinha e Paulão moraram na Filadelfia - Estados Unidos. Mal ou bem o pequenino vai dando conta do recado, aqui na sala. Enquanto não consigo descobrir onde foi parar o ponto de interrogação, vou ter que por um P.I. entre parênteses no final das frases interrogativas. Que saco!
E há um outro episódio com filho do Tio Flamínio no decorrer da minha vida. Veja na próxima postagem.
Suzy, minha irmã que está passando uns dias das férias de 2009 aqui em Sanvic conosco, disse-me que, pelo que ela se lembra, o Nhonhô, irmão da Vó Tudinha, se chamava Ermínio ou Hermínio. E assim vamos costurando alguns dados, alguns fatos, pontinho por pontinho, quem sabe chegaremos a, pelo menos, uma colcha de retalhos do passado da família.
Sobre a Maria do Carmo, filha do Tio Flamínio, em cuja casa ficamos por uns meses em Araraquara: era uma mulher cheia de corpo, cabelos muito curtos, corte que, naquela época se chamava "a la homem". Olhos esverdeados, tinha um tique nervoso que a fazia revirar os olhos, que ficavam uns instantes tremelicando, dentes meio tortinhos, não era uma moça bonita, já bem passada dos trinta e solteira, já solteirona poder-se-ia dizer. Nunca a vi de saia ou vestido, sempre de calça comprida, sapatos baixos, fumando e, pasmem, para o ano de 1952 - 53 um fato bem incomum, andava de moto! Ela era divertida, tinha um jeitinho meio chiado de falar, dava muita risada, combinava muito bem com meu irmão Luciano, de quem ficou amicíssima. Ouvia-se um tititi sobre ela e, só mais tarde, me dei conta do que se tratava.
Ela era, diziam, o que se chamava naquela época de "mulher macho". Tinha umas amigas com quem sempre estava, tudo absolutamente inocente e discreto.
Ela foi, essa prima em segundo grau, legalzona, boa-praça, meu primeiro contato, a primeira vez que vi e tomei conhecimento de uma pessoa homossexual. Chega até a ser meio triste - acredito - para seus pais: a única filha, no meio de vários homens, de Tio Flamínio e Tia Mariquinha, não era mulher.
Acho que foi na década de 80 ou início dos anos 90 que ela morreu, soubemos que teve um problema cardíaco, fez cateterismo e, logo depois, seu coração não resistiu.
Não sei nada sobre seus sentimentos, mas só vi que ela, ao menos publicamente, viveu e morreu sozinha. Daí não me estranha que um coração não resista..........
Outro filho do Tio Flamínio, Onofre, chamado Fifi - uma figura - morou uns tempos em nossa casa em São Paulo, quando morávamos na Vila Mariana, na Av. Cons. Rodrigues Alves, onde meu pai viveu seus últimos dias. Creio que por volta de 1956 - 1957. Ele era casado com uma Iva, carioca, moravam no Rio de Janeiro, tinham um filho. Não sei por que circunstâncias a familia ficava lá no Rio e ele em nossa casa em São Paulo, talvez tratando de algum negócio ou emprego. Iva era uma mulher alta, morena, magra, feia (pelo menos eu a via assim, na época), com cabelo de birote. Ele era também bem alto e magro, careca, narigudo, feio, moreno queimado de sol, muito engraçado, cheio de "tiradinhas" bem-humoradas. Diziam que ele tinha sido apaixonado por minha mãe, na meninice de ambos.
Ele sempre se esquecia de algo quando saia, daí voltava para pegar, saia, lembrava-se de algo mais, voltava de novo. Era tão constante isso que virou uma expressão na família: sempre que alguém volta depois de sair para pegar algo esquecido, dizemos: Que foi que o Fifi esqueceu (ponto de interrogação).
Nota: sumiu o ponto de interrogação do meu lap-top, que foi consertado e agora o que deu pau mesmo foi o computador do Jose, temos só este velhinho, do tempo que Silvinha e Paulão moraram na Filadelfia - Estados Unidos. Mal ou bem o pequenino vai dando conta do recado, aqui na sala. Enquanto não consigo descobrir onde foi parar o ponto de interrogação, vou ter que por um P.I. entre parênteses no final das frases interrogativas. Que saco!
E há um outro episódio com filho do Tio Flamínio no decorrer da minha vida. Veja na próxima postagem.
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