quinta-feira, 17 de setembro de 2009

ISOLINA - VIÚVA TÃO JOVEM

Pelo que sei, Isolina e Júlio foram felizes juntos. A única coisa que me lembro de ouvir minha mãe dizer sobre esse tempo é que ela e meu pai iam visitar o casal em Nipoã - não tenho idéia de onde seja essa lugar - e que a Lina fazia almoços maravilhosos.
(Descobri na Internet que é uma cidadezinha do Estado de São Paulo, que fica a cerca de 50 km de São José do Rio Preto.)


Mas, ao enviuvar, aparentemente ficou numa situação financeira muito ruim, com 5 crianças sob sua responsabilidade e ninguém com quem contar. Embora muito nova, ela foi à luta, minha mãe contava que até sabão para fora ela fez para conseguir dinheiro para manter a família. Talvez tenha sido nessa época negra de sua vida que aprendeu tantas coisas, tantos trabalhos diferentes, que adquiriu tantas prendas. Além de cozinhar, costurava, bordava, subscritava envelopes e escrevia em diplomas e similares com uma letra artísticamente bordada, homogênea, simétrica, perfeita; extremamente exigente consigo própria, não aceitava nada menos do que a perfeição em seus trabalhos. A verdade é que sobreviveu e fez sobreviver sua família, os cunhados não tinham grandes posses para ajudar, também eram pais de muitos filhos, não havia muito a quem recorrer, Isolina tinha que contar consigo mesma e com seu trabalho.

Só em 1947 ela conseguiu uma indicação de alguém influente e arrumou um emprego na Assembléia Legislativa de São Paulo, onde trabalhou até se aposentar. Aí a vida ficou menos difícil , tinha um bom salário e um cargo importante e conceituado. Mas as despesas eram muitas e, quando minha irmã Maria Helena veio estudar em São Paulo para ingressar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, morou com a Tia Lina em uma pensão, a luta pela sobrevivência na Capital era grande.

Mas Isolina era alegre, adorava a vida, gostava de se vestir bem, de usar jóias, de viajar e curtir. Muito comunicativa, cantava bem, conversava bem, tinha boa educação e foi conquistando traquejo social, fazia amizades facilmente, enfim, era uma excelente companhia, exuberante, cheia de charme. Uma vez fez uma viagem de navio à Argentina e foi eleita uma das mulheres mais elegantes do navio, o que a deixou muito feliz, jamais perdia a chance de contar esse caso.

Todos os anos, dava uma festa em seu aniversário; e a família em peso comparecia, além de muitos amigos, seu apartamento ficava lotado, sempre havia muitos comes e bebes, eram ótimas festas. E a moçada toda estava lá, não era como hoje se pensaria no aniversário de uma tia, uma comemoração sem muito ânimo, velha; não, as festas da Tia Lina eram concorridas e animadas, e isso até ela ficar bem velhinha.
Era engraçado como ficava feliz de as pessoas lembrarem de seu aniversário. Ia anotando e numerando as pessoas que ligavam e, se você não ligasse bem cedo, ela dizia: você é a décima pessoa que me liga hoje. Houve um ano que contabilizou mais de setenta telefonemas.

Vaidosa, orgulhava-se de ter a pele conservada e brilhante, os cabelos quase sem fios brancos, e gostava de exibir esses predicados. Com o passar dos anos, foi ficando com muitos problemas de saúde, e a gente precisava estar com tempo livre para falar com ela ao telefone, ela contava todas as suas mazelas, não tinha pressa de desligar. Mas era realmente muito amiga da sobrinhada toda.
Quando minha irmã Suzana e seu marido Amaury foram com os filhos morar em Assunção no Paraguai, logo lá estava a animada Tia Lina visitando. O apartamento no Guarujá de outra irmã, Maria Helena e Geraldo, já tinha um lugarzinho cativo para a Tia Lina e seus chapelões de praia.
Ela logo simpatizou muito com meu namorado (na época) José, que também a adorava, fazia questão de ir sempre visitá-la. No meu casamento, foi dela a responsabilidade de fazer meu vestido de noiva, ficou uma perfeição de caimento, danada de caprichosa a nossa querida tia; fez também algumas peças para a lua-de-mel, tipo pantalonas e macaquinhos-shorts, jamais vou me esquecer, quase não cobrou nada, só mesmo o suficiente para cobrir as despesas.

Uma vez a convidamos para conhecer nosso trailler, ela foi conosco passar o dia no Camping, passeamos com ela por tudo lá, fizemos churrasco, ela se encantou com o trailler, viu cada detalhezinho dos armários, camas, cozinha, banheiro, parecia uma criança.

Mais pra frente, já diabética, ela teve que amputar uma parte da perna, e disse uma frase que marcou muito meu marido José - quando anos mais tarde ele teve que sofrer também amputação; ela tinha dito:
- sabe, amputar a perna não é um bicho de sete cabeças!

Quando quis fazer estes registros, perguntei à Maria Cecilia, neta da Tia Lina, filha de seu filho Washington e de Flora, sua mulher, algumas datas, e ela me respondeu informando não só as datas pedidas mas contando coisas com muito amor e carinho sobre, como ela disse, a querida Vovó Isolina. Cecilia lembra que a avó sempre foi como uma mãe para ela e suas irmãs, gostava de orientar e educar as crianças sobre como por a mesa, como servir os alimentos, ensinando várias regras de etiqueta, aconselhando as crianças a não saírem da mesa enquanto todos não tivessem acabado a refeição e coisas assim. Ensinou também muito sobre fé e religião, orientando-as espiritualmente. Foi ela quem presenteou a Cecília em sua Primeira Comunhão com um terço de prata. E mais tarde foi sua madrinha de casamento, vestida de veludo azul, linda. A neta também ressalta como a avó escrevia bem, até fez uma poesia para sua nora Flora quando seu filho estava para se casar. Era atenciosíssima com todos, e esperava receber atenções de todos.

Até o fim de sua vida ela teve a companhia da zelosa Nina, uma negra forte e bonita que tinha sido empregada de sua filha Dulce, na época de seus filhos pequenos; ficou como uma babá para Isolina, faziam tudo uma pela outra.

Nos últimos anos, sofreu muito, estava sempre acamada, era hospitalizada frequentemente, foi apagando a luz da Isolina. Morreu em outubro de 1998.

Lembrando o que ela havia significado na minha vida adulta, senti que estava perdendo uma amiga querida.

2 comentários:

Unknown disse...

Estou emocionada em relembrar através de seu relato redigido com as palavras tão bem colocadas, expressando exatamente as qualidades de minha querida avó Isolina, que realmente foi uma educadora maravilhosa. Nos ensinou muito...
Quantas histórias para contar...Tenho como recordação os copos de cristal com decoração em dourado que a vovó servia cerveja em seu aniversário. Ela fazia questão de brindar. Acredito que vocês vão lembrar. Ela sempre foi uma verdadeira dama, bonita, elegante, simpática, bem humorada. Sempre com sorriso nos lábios.
Será eternamente lembrada por todos nós .
Lina Maria da S.R.Donatiello ( filha de Washington José Rodrigues , falecido em 29/12/2018 e Florencia da S.Rodrigues, falecida em 09/12/2010


Unknown disse...

Oi,Silvia !!!Apreciei muito a leitura a respeito de minha avó !!!Até hoje guardo cartões que ela me escreveu !!!Passava mais de uma hora conversando com ela no telefone !!!Sempre que ia visitá- la a via com o terço nas mãos !!!Quando ela foi para o Céu ,tive uma visão dela toda iluminada se encontrando com Jesus Cristo ,Face à Face !!!Maria Cecília Rodrigues Netto -Artista Sacra !!!