Enquanto isso, vou aqui puxando pela minha memória para me lembrar das filhas mais velhas da Vó Tudinha e Vô Gino, começando pela primogênita, Leonilda.
Minha mãe contava que ela era muito determinada em relação ao que queria, não se deixava influenciar por ideias alheias nem por instruções e ordens recebidas, se não fosse de seu interesse obedecer. Quando adolescente, trabalhava em uma fábrica em Araraquara, e deveria trazer seu ordenado intacto para a mãe , mas sempre comprava, antes de chegar em casa, um pó-de-arroz perfumado - ou um outro item semelhante, considerado supérfluo (mas não para ela), mesmo que, com isso, levasse uma tremenda bronca da mãe, e até uns tapas. Não adiantava, no mes seguinte faria igual.
Era uma moça bonita, elegante, com um porte de rainha que ela não perdeu até a velhice.
Foi a primeira mulher que eu vi exercitar-se fisicamente, fazia ginásticas regularmente para se manter em forma, desde aquela época tinha cuidados e preocupações não só com a aparência física mas especialmente com a saúde; lembro-me de vê-la deitada em uma prancha com a cabeça em nível mais baixo do que as pernas, para favorecer a circulação sanguínea e evitar varizes. Sempre dava sugestões e mostrava formas de a gente cuidar do corpo, da pele, dos cabelos, com receitas caseiras de sabões para esfoliação da pele, ingredientes naturais para fazer máscaras de beleza para o rosto, evitando acne, controlando a oleosidade e deixando a pele viçosa e sem manchas, choque térmico com água fria no final do banho para enrigecer os seios, formas de escovação dos dentes e produtos para mantê-los mais brancos, líquidos para higienizar e desodorizar pés e axilas, e muitas coisas desse tipo, era a consultora de beleza da moçada, da sobrinhada toda.
Tinha uma forma sempre especialmente carinhosa de chamar todos pelo diminutivo dos nomes, era Marieleninha, Suzaninha, Beatrizinha prá lá e prá cá, e vindo dela soava com naturalidade, era sempre assim. Mas isso não quer dizer que ela fosse meiga e doce; não. Era firme e forte, formal em sua maneira de ser, dura quando necessário.
Trabalhou fora até se aposentar, trabalhava em S. Paulo no escritório de um advogado, acho, era para nós o símbolo da profissionalização, da pontualidade, da correção de atitudes em relação ao trabalho, apreciadíssima por seus superiores. Numa época em que mulheres eram tão somente mães e donas-de-casa, ela, Tia Nilda, era diferente, era a mulher-profissional.
Não sei como era sua vida no início de seu casamento, só me lembro de nossa convivência quando ela já morava em São Paulo, já tinha filhos moços.
Casou-se com um rapaz chamado Firmo , de quem não me lembro, só vi fotos - e poucas; dizem que era um homem bonito. Omito aqui o sobrenome para não deixar em excessiva exposição na Internet. Profissional de Cartório, como meu pai. Tiveram seis filhos, dois homens e quatro mulheres. Parece que viveram muito felizes, eram apaixonados e companheiros, mas tiveram sempre muitas dificuldades financeiras, desfrutaram de poucas fases de "vacas gordas".
Recordo-me de uma ocasião, na minha infância, em que havia uma consternação geral na família por algo muito sério que teria acontecido, ninguém falava a respeito, as crianças ouviam fragmentos de conversas, palavras perdidas. Depois soube que Tio Firmo estava afastado do trabalho, em lugar ignorado por quase todos, pois havia se desentendido e atirado em um colega de Cartório, matando-o. Até hoje não sei ao certo o que teria ocorrido, minha mãe me disse uma vez que o Firmo era um homem muito correto, e que perdeu a cabeça porque foi propositadamente prejudicado em sua vida profissional - e, consequentemente, lesado financeiramente - por esse homem seu colega de trabalho. Mas não sei mais detalhes, esse virou assunto-tabu, ninguém tocava.
Logo depois, uns meses, acredito, Tio Firmo teve um enfarto ou um derrame cerebral, estava com sua filha mais velha, Lygia, que o acudiu e até fez uma sangria em seu braço; mas ele não resistiu e morreu nos braços da filha. Com sua morte, mais e mais ficou proibitivo mencionar-se a desavença e o assassinato. É desses assuntos de família sobre o qual ninguém quer falar, ninguém quer lembrar.
P.S.: Meu irmão mais velho e meu padrinho, Sérgio Emílio, que mora há alguns anos no Guarujá, veio passar conosco aqui em São Vicente umas horas do domingo, pois José, como todos os anos, vai fazer sua Declaração de Imposto de Renda. Mesmo já tendo passado dos 80 anos, Dindinho (como eu o chamo, de brincadeira) é absolutamente lúcido, tem um constante bom-humor (como o que tinha minha mãe), está sempre pronto a fazer brincadeiras com todos, é uma ótima companhia.
Perguntei a ele sobre o episódio do Tio Firmo que relatei acima, e ele me corrigiu num ponto, não foi com um revólver que foi morta a pessoa, mas sim com uma faca. Sérgio também me contou um pouco sobre a personalidade do nosso tio, disse que era um homem aparentemente calmo e tranquilo, mas muito duro e intransigente, quando se tratava de justiça, do que era para ele o certo. Disse que ele não relutava em castigar seus próprios filhos se soubesse que tinham cometido algo ilícito ou injusto com alguém; gostava de tudo muito "às direitas".
E que esse triste acontecimento da vida dele deveu-se a ter sido injustiçado por seu chefe no Cartório, que preferiu ficar bem com um cliente rico ao invés de apoiar seu funcionário em uma reivindicação que ele sabia ser verdadeira; e, para piorar ainda mais a situação, quando Tio Firmo insistiu para que ele reconsiderasse sua atitude, ele sumariamente o despediu. Naquela época, não havia nenhum tipo de seguridade social, de garantias trabalhistas, um Escrevente de Cartório era como um trabalhador autônomo, que sairia sem nada. Sendo um homem já maduro, com uma grande família sob sua responsabilidade, seria muitíssimo difícil encontrar outro emprego, ainda mais se se considerasse que seria sem referências. E foi esse aglomerado de situações desesperadoras que o levou àquele desatino.
Só volto a me lembrar de contato com a Tia Nilda já na minha adolescência; morando em São Paulo, eu trabalhei em diversas empresas no centro da cidade e, volta e meia, ela convidava para ir almoçar com ela; naquele tempo, com o trânsito livre, tínhamos duas horas de almoço e normalmente íamos pra casa; quando recebia seu convite, ia para a casa dela - que era também no centro, mais pros lados da Estação da Luz, e sempre havia uma comidinha caprichada esperando, era muito carinhosa com os filhos da Edy, interessava-se pela saúde da gente, uma mãezona dos sobrinhos.
Tia Nilda e Tia Lina compraram apartamentos em prédios pegados, ficaram morando muito próximas as duas irmãs mais velhas.
Foi Tia Nilda que ingressou no Coral do MOP - Movimento pró Idosos, e levou minha mãe com ela; uma vez por semana as duas iam ensaiar, era um local proximo de Perdizes, passavam a tarde nessa atividade. E adoravam! Algumas vezes se apresentaram com o Coral em eventos pela cidade, lembro que não havia uniforme, mas todas tinham que estar de blusa cor-de-rosa na apresentação. Foi uma coisa boa na terceira idade das irmãs, que cantavam - o que era muito prazeroso para elas - e tinham motivo para se verem toda semana, mesmo nesta São Paulo tão grande, e minha mãe morava longe, na zona sul.
Desde a morte da Vó Tudinha, todos os anos, no aniversário da morte dela - 29 de junho - Tia Nilda mandava rezar uma missa numa Igreja do centro da Cidade, e a família toda comparecia, era um acontecimento, só se faltava mesmo por motivo de força maior, ia toda a moçada, ninguém cogitava se esquivar do compromisso. E, após a missa, as três irmãs iam pra casa da Tia Nilda e passavam o dia juntas, em memória da mãe. Esse ritual anual durou muitos anos, e só terminou quando Tia Nilda já não estava bem de saúde, não tinha mais lucidez para tomar as providências todas sozinha. Daí, ela, que morava com a filha mais nova, Lúcia, solteira, foi levada para morar na Fazenda da filha mais velha, Lygia, em Caçapava, SP, porque sua condição física requeria cuidados contínuos e Lúcia trabalhava fora, tinha seus compromissos, não era a pessoa mais indicada para cuidar dela. Ela foi ficando esquecida de tudo, com mal de Alzeimer, no final não reconhecia nem as filhas. Contam que, certa vez, vieram com Tia Nilda a São Paulo para pegar coisas em sua casa antiga, ela entrou na sala do apartamento, olhou para o quadro na parede com a foto de seu marido Firmo e teria dito:
- que homem bonito, parece que eu conheço esse homem.........
ao que sua filha respondeu:
- bem, mamãe, é bom mesmo que a senhora o conheça porque vocês tiveram seis filhos juntos!
Nos últimos meses de sua vida, minha mãe foi para a fazenda ficar uns tempos com a irmã, ajudando a cuidar dela e especialmente fazendo companhia. Minha mãe contava que ela parecia feliz quando mamãe cantava pra ela e dizia:
- preste atenção, Nilda, aprenda a música que vamos nos apresentar com o Coral do MOP.
Minha mãe dizia que parecia ver um lampejo de lembrança em seus olhos, tão distanciados da realidade pela doença.
Tia Nilda já estava com mais de 90 (acho que 92 ou 93 ) anos, quando deu seu último suspiro e se foi deste mundo.
Esta é uma foto da querida Tia Nilda
em frente à Igreja da Praça do Patriarca,
no centro da cidade de São Paulo,
ao final da missa pelo aniversário de
morte da Vovó Tudinha, em 1974.
