quinta-feira, 14 de maio de 2009

A VOVÓ TUDINHA

Preciso começar a corrigir uma distorção aqui. Até agora o foco ficou na figura do meu avô, Gino Pochini, dando a impressão de que sua esposa, Gertrudes Ramalho Pochini, teria sido um mero acessorio da vida dele, sem vida própria. Pode até ter sido, no aspecto intelectual; ela não era letrada, não tinha estudo. Mas, certamente, a pequenina Tuda tinha brilho próprio. Imagino que tenha sido uma moça bonitinha, creio que seus olhos esverdeados eram seu ponto alto na questão "visual". Não consigo imaginar como seria a vida do casal, provavelmente eles se tratavam por "senhor" e "senhora"; até o final dos seus dias, ela era muito envergonhada, pudica, recatadíssima, tudo o que se relacionasse, por mais veladamente que fosse, a sexo, sem dúvida, seria assunto tabu. Até a palavra "gravidez" dizia em tom baixo, como algo que não se alardeia.

Mas, após a morte do marido,com certeza revelou-se a fortaleza dela, no comando da vida de três meninas-moças, órfãs pobres. Ouvi sempre que Tio Flamínio assumiu o grosso das despesas delas quatro, mas sei que a filha mais velha logo foi trabalhar, e a vovó se desdobrava nas tarefas caseiras, tudo tão difícil naquela época, sem dúvida auxiliando também na casa da cunhada, Tia Mariquinha - mulher do Tio Flamínio - de quem só ouvi, até hoje, falar elogios. Não me lembro se a mencionei antes, eu a conheci já velha e cega pela diabetes, uma senhora alta e extremamente bondosa. Minha mãe dizia que ela acolhia e cuidava de doentes pobres, prostitutas grávidas, qualquer um, por mais miserável que fosse, que batesse à sua porta, jamais sairia sem auxílio.

Pois bem, nesse cenário, estou convicta de que minha avozinha deva ter sido uma ajudante e tanto para sua cunhada Mariquinha, ela também era muito solícita para ajudar os necessitados, e sempre teve muito carinho pela mulher de seu irmão, até o fim da vida.

Depois que a terceira filha se casou, ela passou a viver com as filhas, sempre havia uma esperando nenê, sempre havia uma criança que requeria mais cuidados, sempre havia alguém doente, e lá estava ela ajudando. Nunca teve sua própria casa, estava sempre onde precisassem dela.

Até me lembro que, bem pequena, em Rio Preto, eu ficava com inveja das minhas amigas que iam para a casa da avó para passar férias ou fins-de-semana, pois minhas duas avós moravam conosco, eu não tinha casa da avó para ir.

Minha mãe teve oito filhos, Tia Lina teve dois, Tia Nilda teve seis, façam as contas de quantas vezes ela ficou acompanhando grávidas e bebês recém-nascidos. Isso sem contar as ocasiões em que havia algo de especial como, por exemplo, com meu irmão Heitor. Minha mãe engravidou imediatamente após o nascimento dele, apenas um ano e um mês ele tinha quando nasceu a Maria Helena. E Heitor teve algum sério problema de saúde, não sei agora o que, mas isso fez com que a Vovó Tudinha viajasse com ele para alguns locais de bom clima que fizessem bem à saúde dele; e ela ficou com o Totó - como ela dizia - mais de um ano, cuidando dele sozinha, enquanto minha mãe permanecia em casa com a nenê recém-nascida e mais dois meninos também pequenos, Luciano com 3 anos e Sérgio com 5. Era um tempo de muitas crianças! Todas as Pochini eram muito católicas, só evitavam filhos por métodos naturais - tabelinha e distãncia dos maridos. E ainda estava longe o tempo em que se inventaram as pílulas anticoncepcionais.

Pelo que me lembro, meu pai e a Vó Tudinha tinham um relacionamento que eu não sei muito bem se era atritoso mesmo ou só de constantes cotucadas. Eles não brigavam, mas viviam em perene estado de peleja, meio na brincadeira, meio sério, ela dizia:
- ah, o Senhor é muito implicante!
mas continuava fazendo o que estava fazendo.
E ele dizia:
- essa velha com esse nariz de apagar-vela! vai, dona Tudinha, vai........

(Não sei se ainda existe, provavelmente nenhum de vocês que me leem jamais sequer ouviu falar, quanto mais viu de fato, um apagador de velas. Era uma peça de metal, no formato mesmo de um nariz grande (mas sem a divisão do meio das narinas), colocada na ponta de um pau, como se fosse um cabo de vassoura bem comprido; com isso, se apagavam as velas que estavam acesas lá no alto dos altares nas igrejas, sem se precisar subir em escadas, bastava encaixar aquela capinha na ponta da vela, abafando a chama e o fogo se apagava.)

E ela, a Vovó, já bem velhota, tinha mesmo o nariz parecido com um apagador de vela! Por seu lado, meu pai era mesmo muito implicante, sempre foi.

Acho que ela não ficava de verdade brava com ele, logo estava levando algo para ele beber ou fazendo outra coisa qualquer para ele. E ele tinha muito respeito pela presença dela, havia coisas de que a vovó não gostava, como baralho, por exemplo, e ele respeitava, não se jogava baralho em casa enquanto a vovó estivesse acordada. Nunca presenciei atritos reais entre os dois.

Ela exercia muita autoridade com a criançada, e isso não se cogitava que pudesse ser mudado. Nem meu pai nem a mamãe ousavam desdizer uma ordem dela. Ao mesmo tempo que a gente contava com a benevolência da vovó para uma série de coisas - tudo que a gente precisasse ela fazia, passava a roupa que você queria usar, lavava com perfeição aquela blusa que você tivesse manchado, fazia os pratos que qualquer um tivesse vontade, encarregava-se de guardar um pedaço de algo que fosse servido na ausência de alguém, tinha sempre o melhor colinho para consolar após um tombo, sabia os melhores remedinhos para curar cólicas menstruais -
mas também sabíamos que ela era mais um par de olhos para vigiar se fizéssemos algo errado, se desobedecêssemos alguma ordem, se tentássemos alguma trapaça ou falcatrua com alguém: aí ela sabia ser dura no castigo, não poupava nada nem ninguém.

Bem, eu pretendia falar um pouco da amada Vó Tudinha. Mas percebi que, depois que comecei a pensar nela, tenho mais coisas para contar sobre ela do que posso agora, nesta noite.
Ela foi uma das pessoas que eu mais amei na minha vida, sua morte me causou uma das maiores tristezas que já sofri. Esta postagem não vai ser suficiente; vou precisar de mais espaço para ela.

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