sexta-feira, 15 de maio de 2009

MAIS SOBRE A VÓ TUDINHA

Como já falei, ela era um amor de avó. E diziam que ela tinha suas preferências por alguns netos, seus "elefantes sagrados" era a expressão usada. Ela adorava o Heitor, talvez por ter convivido mais estreitamente com ele na infância. Mas seu "elefante sagrado" era o Luciano; com temperamento mais calmo que o dos dois outros irmãos homens, era mais atencioso, mais cordial, mais alegre e risonho. Ao Luciano tudo ela desculpava, tudo justificava, atenuava. E assim foi a vida toda.
E eu fui seu outro "elefante sagrado"; ela não titubeava em dar tapas na boca de quem dissesse o menor palavrão, mas contam que comigo teve condescendência. Eu deveria ter uns 2 ou 3 anos, cheguei na cozinha e limpei o nariz no seu avental; tomei uma bronca:
- menina porcalhona, atrevida, onde já se viu limpar o nariz no avental da gente???!!
e eu respondi, para surpresa e apreensão geral:
- ah, vovó, vá à "meida"!
Todos que se encontravam perto ficaram mudos, a espera da reação dela; que apenas fez cara de espanto e escondeu o rosto para dar risada, sem uma repreensão sequer. Aí ficou decretada a preferência: a Sílvia podia fazer tudo que quisesse que a vovó relevava. É claro que não era tanto assim, mas na verdade meu relacionamento com ela foi sempre maravilhoso, eu a adorava, ficava ao seu redor, fazia tudo junto com ela. Os anos foram passando e nossa cumplicidade só se consolidava. Já adolescente, ela ia fazer a bainha da saia do meu uniforme de escola, minha mãe marcava tantos dedos abaixo do joelho, eu ia reclamar, ela piscava pra mim, e depois me dizia:
- deixa, meu coração, eu encurto um pouco e ela nem vai perceber.

Em compensação, quando a minha mãe não deixava dar caipirinha pra ela por causa da pressão alta, eu arranjava jeito de surripiar um golinho numa xícara e levava escondido. Sempre sua pressão arterial foi alta, precisava comer com menos sal do que a comida do resto do pessoal, então minha mãe fazia as coisas pra ela bem temperadas com alho e cebola e pimenta e cebolinha e salsinha, para desfarçar a falta do sal; e foi assim, comendo com ela da comidinha dela, que aprendi a não gostar de nada salgado.
A velhinha era chegada numa "chiboca" (ou "xiboca"?), feita com uma boa pinguinha. Não existe essa palavra no dicionário, mas assim chamávamos caipirinha em Rio Preto. Mesmo depois que a vovó quebrou a perna e não andava mais, sempre havia uma bebidinha qualquer em seu criado-mudo, guardadinha para um momento em que ela queria tomar um golezinho. Ou era um licor, um vermute, um vinhozinho. Ela bebia bem pouquinho, era só um gole, mas não podia faltar, estalava a língua, apreciava mesmo.

Lembro que ela gostava muito, ficava feliz quando ouvia anunciar, batia palmas de alegria, quando via a Angela Maria começar a cantar. Tenho essa lembrança linda da minha avó, ainda agora nítida na minha memória, sentadinha na cadeirinha de rodas que o Luciano fez pra ela, com os olhinhos verdes brilhando e batendo palmas porque ia ver cantar a Angela Maria. Tudo que a Angela cantasse ela achava maravilhoso, mas a Ave Maria no Morro a fazia chorar mesmo.
E ela própria era afinadíssima, quando cantava junto com minha mãe ou minhas irmãs, sempre fazia uma segunda voz ou um contra-canto, muito lindo.

Antes de virmos definitivamente para São Paulo, na época em que ficamos em Araraquara na casa do Tio Flamínio, todas as quartas-feiras eu ia com ela, a pé, para o centro da cidade, para a Catedral, onde havia a celebração da novena de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Eram umas duas horas de novena - nunca acabava, faziam as nove quartas-feiras e na semana seguinte se começava de novo - com algumas orações faladas e muitas cantadas; a igreja toda cantava, ficava cheia toda semana, era lindo porque ficava um coro potente, muito afinado, um grupo fazia a segunda voz, íamos embora pra casa com aqueles cantos ainda ecoando nos nossos ouvidos, íamos as duas cantando pelo caminho de volta.

Já em São Paulo, após a morte do meu pai, ela ia todos os domingos, bem cedo, sozinha, a pé, de tailleur e sapato alto de salto tacão, para a missa na Capela do Colégio Cristo Rei, onde estudei.

Até o finalzinho de sua vida sempre trabalhou. Tinha as mãos calejadas e grosseiras de quem sempre trabalhou pesado na vida. Pedia que eu a levasse para o banheiro na sua cadeira de rodas - o Luciano pegou uma poltroninha com o espaldar baixo e arredondado, que se estendia para as partes das laterais do corpo, como se fossem braços da cadeira; pôs umas rodinhas (como uns rodízios) nela, era bem estofadinha, e a gente empurrava a velhinha acima e abaixo. Pois ela escondia umas roupinhas sujas para ir lavá-las no bidê, só porque não acostumava a ficar sem fazer nada; minha mãe passava e dizia:
- Vó, por que não me deu essas roupas para lavar junto com o resto? (minha mãe a chamava muitas vezes de "vó", como os filhos chamavam)
e ela respondia:
- não, minha filha, foram só umas pecinhas que ficaram perdidas na cama e eu não percebi........

Era a Vó Tudinha a encarregada de todas as costuras e consertos e remendos de todas as roupas de todos da família. Sem ter feito curso algum, sabia tudo sobre costuras e moldes e cortes. Até hoje na família, quando alguém consegue fazer algo que fique bom nessa área, diz que teve auxílio do espírito da Vó Tudinha.
Tenho ainda na memória o vestido que ela me fez, justinho, com uma sobressaia um pouco mais curta e aberta na frente, vestia como uma luva. Era um vestido de festa, de um acetinado estampadinho bem delicado, em tom claro. Como já estava com a perna quebrada, costurou tudo, absolutamente tudo na mão, com o maior capricho, extrema perfeição. Fez pontos tão iguais e firmes que ninguém percebia que não tinha sido costurado à máquina. Danada a velhinha!

Tinha ciume de suas coisas, não gostava de emprestar, dizia que o pessoal estragava tudo, não tinha o devido cuidado. Muitas vezes a Beatriz pegava alguma roupa dela escondido, como um agasalho ou um cachecol, na gaveta da cômoda que ficava no quarto, mas se ela percebesse dava a bronca. Para mim, emprestava sem reclamar, e é claro que eu tomava um cuidado redobrado com tudo, para não perder sua confiança.

Foi uma doce e adorável velhinha. Todos os netos e bisnetos gostavam muito dela, iam sempre visitá-la, levavam presentes. Outra neta que era xodó dela era a Lúcia, filha da Tia Nilda, ela achava a Lúcia linda, chamava-a de "minha morena", orgulhava-se da neta, dos concursos de beleza que ela ganhava, guardava fotos e recortes de revistas com notícias sobre ela.

Não deixava ninguém falar mal de ninguém, nunca. Se você começasse a criticar alguém, lá vinha a - como dizia meu pai - Advogada de Defesa! sempre tinha uma justificativa para a pessoa, nunca tinha sido bem assim tão grave como pareceu o que a pessoa fez. Ninguém era feio, ela conseguia achar nem que fosse um fio de cabelo bonito, um cachinho, a cor da pele, o redondinho do joelho, nunca ela concordava que fulana ou fulano fosse feio.

Quando você ficava insistindo com alguma coisa, atrapalhando, importunando, o auge de irritação que ela alcançava era quando batia os pezinhos e:
- sai daqui, menina, "su ursa"! "Su ursa" era o máximo do xingamento pra gente!

E se ela ficasse mesmo muito, mas muito irritada, sabe, caso de martelar o dedo ou perder o ponto da calda, aí ela soltava um sonoro "Berda Merda"! seja lá o que for que isso significasse.

Ela morreu com 87 ou 89 anos, não tenho certeza, morávamos na Rua Sud Menucci na Vila Mariana em São Paulo. Eu tinha pouco mais de dezessete anos, trabalhava na Executives que, nessa época, tinha escritórios na suite de um Hotel na Av. Nove de Julho. Eu, que era avessa a formalidades, a fazer coisas só porque era convenção geral, tive vontade de fazer isso, e fiz: No dia seguinte à morte dela fui trabalhar toda de preto, porque eu me sentia em luto.

Chorei a morte dela por muito tempo, senti saudade, muita saudade, tudo me lembrava a minha avozinha. Recordo-me que até me senti um pouco culpada porque sofri muito mais com a morte dela do que havia sofrido, três anos antes, com a do meu próprio pai.

Por tudo isso foi que disse no início que Gertrudes Ramalho Pochini, a esposa de Gino Pochini, não foi um mero acessório em nossa história. No que tange à minha história, especificamente, ela desempenhou um papel primordial. E é personagem inesquecível.

Um comentário:

Silvinha disse...

eu não canso de ler esse aqui.