sábado, 6 de junho de 2015

DE VOLTA PARA O PASSADO





Após o registro dos trinetos dos meus pais, todos nascidos no Século XXI, vamos voltar no tempo para o ano de 1898, isso mesmo:  SÉCULO DEZENOVE!

Era na zona rural da cidade de Orlândia - SP.  Maria Osória já tinha um filho de cerca de 2 anos, João, e estava novamente grávida quando seu marido morreu.  Depois de uns meses ela deu à luz outro menino, chamado Domingos.  Imagino que sua situação tenha ficado difícil, viúva jovem com dois filhos pequenos.

Minha avó, Maria Osória, estava amamentando o pequeno Domingos quando apareceu um pretendente à sua mão, Joaquim Henrique.  Mariana, uma tia de Maria Osória, ponderou com ela que não ficava bem amamentar uma criança e receber um namorado, e sugeriu:
- deixe-me levar esse bebê para minha casa em Rio Preto, cuido dele até que você se case novamente e normalize sua vida.

Mariana Aurora era uma mulher muito caridosa, tinha experiência em cuidar de crianças embora nunca tivesse tido um filho seu.  Casada com Evaristo Ferreira, sempre se dispunham a acolher crianças e adolescentes abandonadas ou com problemas de família, e as tratavam com amor e carinho até que se encaminhassem na vida.  Ela era uma ótima costureira, então ensinava a profissão para as meninas que recolhia, dava-lhes tudo que necessitassem.  Parece-me que chegou a acolher, no decorrer de sua vida, cerca de 20 pessoas carentes.  Uma vez chegaram a acudir  um homem machucado caído na rua, levaram-no e trataram dele em sua própria casa  até que se restabelecesse e pudesse seguir seu caminho.

Se faziam isso com filhos de estranhos, com mais ternura e prazer fariam para uma sobrinha.  E esse arranjo foi oficializado.  Mariana e Evaristo levaram o bebê Domingos para Rio Preto e ficaram tomando conta dele.  É claro que se afeiçoaram à criança  - e ela a eles.

 Maria Osória deve ter demorado mais do que o esperado para se acertar com o novo marido, e passou-se um tempo antes de ela pedir à tia Mariana que lhe devolvesse o filho.  Talvez ela tenha engravidado de novo e a situação ficou complicada, o certo é que Mariana foi protelando a devolução do menino, por um motivo ou outro, e os anos se passaram.  Daí a própria criança já não queria se separar do casal com quem estava desde muito novinho, e isso passou a ser mais um fator dificultador.  Até que, quando ele já estava com sete anos completos, Maria Osória bateu o pé e firmou posição com a tia:  queria seu filho Domingos de volta.

Para Mariana e Evaristo deve ter sido uma dor enorme essa separação, mas levaram o garoto Domingos para viver na fazenda com sua mãe, padrasto e irmãos.  Obviamente foi muito difícil para a criança, imaginem o que terá sido deixar os "pais", sua casa na cidade, a condição de "filho único" com todas as atenções para si, e ir para outro local, uma fazenda, com pessoas que lhe eram praticamente estranhas!

Acredito que todos tenham se esforçado para que tudo desse certo, e dois anos se passaram; mas um dia Mariana com surpresa viu chegar, sozinho em Rio Preto, o querido Domingos, que fugiu da casa da mãe e conseguiu, sabe-se lá como, com apenas 9 anos de idade, alcançar seu objetivo de voltar para o lugar onde queria viver.

A própria Maria Osória acabou concordando que seu filho estava mais feliz lá, e permitiu que ele ficasse com sua tia.  Pode ser que esperasse que, mais tarde, ele mudasse de idéia e quisesse viver com ela, mas isso nunca aconteceu.  É provável que durante sua infância ele e a mãe se vissem com frequência, até porque havia um irmão, João, com quem ele nunca chegou a conviver mesmo.  Com o passar dos anos, entretanto, houve um efetivo distanciamento, Maria Osória com sua vida atribulada, deve ter tido novos vários filhos, Domingos chegou à adolescência e, certamente, outros interesses  o prendiam a Rio Preto.

E foi assim que Mariana, a tia da minha avó biológica, se tornou para mim e para nós todos, os oito filhos de meus pais, a Vó Mariana e, por conseguinte, seu marido o Vô Evaristo.  Ele eu não cheguei a conhecer, mas ela sim.  Eu me lembro dela, de sua figura alta e magra, completamente diferente da Vó Tudinha, mãe da minha mãe, que era baixinha e cheiota de corpo.  Vó Mariana deve ter morrido por volta de 1949/50, lembro da casa onde vivíamos nesse tempo, do quarto onde ela dormia,bem na frente da casa,  e eu era bem nova, com 5 anos aproximadamente.  Vó Mariana morreu bem velha, acho que com quase 90 anos.

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