Não sei sequer os nomes dos pais da minha avó, eu, que convivi tanto com ela até meus 17 anos - era viuva e morava conosco - tão queridinha. Acho que a mãe dela se chamava Olímpia, e só soube disso porque minha mãe contou que deveria ter sido registrada com o nome da avó, Olímpia, mas que seu pai, um italiano compositor e maestro, ao ir ao Cartório em Campinas - SP
para fazer o Registro de Nascimento, enlevou-se com o som do ensaio da Ópera no Teatro Carlos Gomes e, quando o Escrivão perguntou,
- qual o nome da criança? distraído, respondeu
- Aída.
Ao chegar em casa, Gertrudes, sua mulher, minha avó Tudinha, teria ficado bravíssima com ele, queria ter homenageado sua mãe dando o nome Olímpia para a terceira filha, mas era tarde, estava feito. E ficou Aída, chamada a vida toda de Edy, um apelido derivado de Aidinha, que era como as irmãs a chamavam.
Então, organizando as idéias:
- em Araraquara, ou Cedral, ou Matão, ou em algum lugar provavelmente perto dessa região no
Estado de São Paulo, Gertrudes, uma mocinha baixinha, de pernas meio tortas, arqueadas, nariz adunco e lindos olhos verdes, quadris largos e cintura fina, que manteve seus cabelos compridos, já totalmente brancos, amarrados num birote até os 87 anos (acho que era essa sua idade ao morrer), pois bem, essa Gertrudes, chamada Tuda ou Tudinha, filha de uma Olímpia não sei do quê e de um Fulano de sobrenome Ramalho, se casaria com Gino Pochini e teriam três filhas, Leonilda (Nilda), Isolina (Lina) e Aída (Edy). Sei que a vó Tudinha teve alguns irmãos, dois dos quais conheci: Tia Belinha (acho que se chamava Isabel), uma velhinha faceira, falante, divertida, se não me engano, tinha fama de mentirosa, que vi algumas vezes quando eu era bem pequena, antes dos 9 anos, em Araraquara, onde morava o outro irmão, bem mais novo, Flamínio, homem sério, todo empertigado, semi-inválido por causa de um reumatismo que o mantinha numa cadeira, com as mãos deformadas, muito branco de pele. Moramos - mamãe, Beatriz, Lucinha e eu - na casa dele e de sua mulher (Tia Mariquinha, uma velha alta e doce, quase cega pela diabetes, um anjo de bondade)
Além de Tio Flamínio e Tia Belinha, sei (ou acho que sei) de outro irmão, que chamavam de Nhonhô - não me lembro de jamais tê-lo visto, e não faço idéia de seu nome verdadeiro.
Pois bem, em algum momento de sua juventude, Tudinha se casou com um rapaz italiano, Gino Pochini; ficaram poucos anos casados, ele morreu muito jovem, minha mãe tinha apenas 7 ou 8 anos; teve algo sério no fígado, não houve chance de cura. Desse homem sei muito pouco. Há algo obscuro sobre sua vinda para o Brasil, fico pensando como um jovenzinho parte de sua terra sozinho para outro continente, para um país desconhecido, sem família; por que? o que houve lá que fez com que ele deixasse sua pátria, sua língua, sua família e amigos, namorada talvez? era menor de idade ou pouco mais do que isso; o que leva um pai a deixar seu filho partir nessa circunstância? que foi que aconteceu de tão grave e/ou irremediável? e, que se saiba, ele nunca mais voltou para a Itália, nem nunca foi visitado por nenhum parente ou amigo. Aparentemente, ou lá ou já aqui no Brasil, esse rapaz estudou, era professor, compositor, maestro, mais culto que qualquer outra pessoa ligada à nossa família, era um homem bem-apessoado, temos foto dele com os alunos - minha mãe entre eles - na sala de aula de sua Escola, que era na própria casa onde eles moravam. Se não estou enganada, era Toscano, ou seja, não era um ignorante qualquer, morto de fome que emigrou, mas alguém que veio de uma região nobre da Itália, culto e refinado.
Esta é uma das pouquíssimas fotos que temos desse italiano, Gino Pochini, meu avô materno.
Vovó dizia que tudo com ele tinha sido muito formal - ela se referia a sexo e intimidade do casal::
- seu avó nunca pulou por cima de mim para sair da cama!
E, quando meu irmão mais velho, Sérgio, provocador terrível, para envergonhá-la perguntava como foi que ela ficou grávida, ela dizia
- pois saiba, menino bobo, que foi no escuro e com muito respeito!
Esse homem fez com que suas filhas estudassem, coisa raríssima entre as mulheres, especialmente as pobres, da época; minha mãe nasceu em 1908, então estou falando de uns anos após isso, ele morreu em 1916, ou perto disso. Ela e suas irmãs eram muito mais instruídas do que as moças de sua época, minha mãe escrevia até a velhice muito bem, compunha músicas com letras elaboradas, com métrica e rima, usando um vocabulário rico, sabia um pouco de francês, coisa atípica para aqueles anos.
Quando ele morreu, minha avó ficou com as três filhas bem novas, sem recursos, então foi morar com o irmão Flamínio, que tinha uma posição boa na cidade, e lá ficou até que se casassem as três donzelas.
Só mais um detalhe sobre o vô Gino: havia algum problema com seu pé, não sei se algo congênito ou um defeito ou deformação adquirida, mas ele andava sempre de sapato fechado, uma espécie de bota ou coturno, e ouvi dizer que nunca ninguém o viu com o pé descalço.
Ah, como eu gostaria de saber mais sobre esse homem fascinante. Tenho até hoje nos meus guardados, que herdei quando mamãe morreu, já que tudo dela estava em casa, onde ela morava a maior parte do tempo - a letra e a partitura do Hino a São Paulo, composto por ele.
(nota posterior, de 11.07.2017): Vou postar aqui hoje, com muita satisfação, um vídeo onde o querido Sérgio Carvalho, violinista da Orquestra Sinfônica de Santos (que me foi apresentado por minha sobrinha Marta Lúcia Botelho Prado - filha de meu irmão Luciano Eduardo Prado e de sua mulher Maria Lúcia Botelho Prado) interpreta esse hino. Mandei a ele a partitura e ele, carinhosa e gentilmente, executou o hino. Que, na verdade, não tem sua melodia composta por meu avô Gino, mas sim é o autor da letra, como vocês verão no vídeo.
Que relapsos somos, nós, os descendentes desse italiano, nunca mandamos para um músico ler e tocar esse Hino, está guardado em cima de armários, no maleiro, esquecido e malbaratado em sua importância. Que vida imediatista levamos, sem história passada e, certamente, sem história futura - nossas vidas se estancarão com a morte, nem a memória ficará. Que tremenda falta de tempo, que pouco apreço por nossas origens, que descaso por tudo o que nos precedeu e que, de alguma forma, forjou nossa família, em cada um dos seus membros, como somos hoje.
(nota posterior, de 11.07.2017): Vou postar aqui hoje, com muita satisfação, um vídeo onde o querido Sérgio Carvalho, violinista da Orquestra Sinfônica de Santos (que me foi apresentado por minha sobrinha Marta Lúcia Botelho Prado - filha de meu irmão Luciano Eduardo Prado e de sua mulher Maria Lúcia Botelho Prado) interpreta esse hino. Mandei a ele a partitura e ele, carinhosa e gentilmente, executou o hino. Que, na verdade, não tem sua melodia composta por meu avô Gino, mas sim é o autor da letra, como vocês verão no vídeo.
(fim da nota de 11.07.2017)
(nota posterior de 11.07.2017 - nº 2) Como não consegui fazer abrir o vídeo acima - não sei se é pesado demais para este tipo de blog - vocês podem ver e ouvir a música numa postagem bem mais recente, chamada UM LADO MUSICAL, desta data. Peço desculpas por minha pouca (pra dizer o mínimo) habilidade e aptidão tecnológica para fazer inserções neste blog........depois de 7 décadas de vida, tudo isto é difícil pra mim, podem acreditar.
(fim da nota posterior de 11.07.2017 - nº 2)
Esta minha tentativa de registrar aqui a existência dessas figuras que são o princípio da mescla do nosso sangue, do nosso DNA, é porque esse desleixo me incomoda, me envergonha até. Não sei se vou dar conta do recado, se vou ter persistência e disciplina para ir em frente com isto, mas hoje dei um passo, apenas o primeiro, trôpego, titubeante, sem dados concretos, só as lembranças, sei lá se confiáveis. É pouco, mas é algo.
(Nota posterior - de 10.11.2009) Meu irmão Heitor está muito mal de saúde; há mais de um ano ele caiu no metrô em S.Paulo e fraturou uma vértebra da coluna cervical; ele sempre teve, desde os 18 anos, seríssimos problemas com reumatismo - tem as mãos e os pés deformados pela doença, seu pescoço é endurecido e, se ele deitar de costas no chão, sua cabeça fica longe do solo uns bons 10 cm, pois o pescoço não se move. Acho que esse problema é hereditário, como já mencionei o Tio Flamínio vivia entrevado, andava somente apoiado e com muletas, então sou levada a crer que isso venha dos Ramalho.
Mas estou mencionando tudo isto agora porque minha sobrinha Renata, filha do Heitor e de uma namoradinha da juventude chamada Alice, mora com sua família em São José do Rio Preto - SP e é lá que está hospedado agora o Heitor, sendo cuidado e fazendo os tratamentos recomendados.
Infelizmente, seu estado é bem crítico, está fazendo hemodiálise três vezes por semana, encontra-se muitíssimo enfraquecido, magérrimo, quase não se alimenta, não consegue mais se levantar da cama, até mesmo sua mente está confusa, provavelmente em vista do problema renal e pelo excesso de remédios. Esse o motivo de a Renata ter pedido ao meu irmão mais velho, Sérgio, que providenciasse deixar vistos e em local de fácil acesso, os papéis do jazigo de meu Pai no Cemitério do Araçá em São Paulo. Acontece que esses papéis ficaram em meu poder desde a morte da minha mãe, em 2004, então fui procurá-los para enviar ao Sérgio, atendendo a seu pedido.
Esses documentos estão guardados comigo há tempos, e nunca tive a curiosidade de vê-los mais aprofundadamente, mas agora o fiz, e encontrei Certidões de Óbito que me estão sendo úteis para informações desde blog com os registros da família.
Por exemplo, a da Vó Tudinha, onde consta que ela nasceu em Matão - SP, e que era filha de Olímpia Augusta Ramalho e Flamínio Ramalho. Estou assim acrescentando estes dados aqui, pois eu não sabia que seu pai também se chamava Flamínio, nem que sua mãe se chamava Olímpia Augusta, só havia ouvido falar de Olímpia, sempre.

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